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| Mutismo Seletivo |
Não lembro mais o seu nome, porém ainda
conservo a imagem de seu rosto, seus gestos, seu lindo sorriso, suas engraçadas
e intermináveis brincadeiras. Morávamos a duas quadras da escola, portanto era
comum nos encontrarmos na ida para a mesma, e lógico na volta também. Tentei
visualizar como ela se comportava em sala de aula, não consegui, mas não tenho
nenhum problema de memória, apenas lembrei que não pertencíamos à mesma turma.
A garota era muito divertida, brincalhona
mesmo, mas quando chegávamos ao final de nosso trajeto, ou seja, escola, o
sorriso sumia, as brincadeiras desapareciam, sua expressão era muito diferente,
não era mais a mesma.
Lembro-me de muitas vezes ela ter ficado sem
recreio, ou então, tinha que esperá-la na saída, pois sua professora insistia
em dizer: - “Fala ou você não pode ir embora”. Através da porta conseguia
observá-la imóvel, tinha impressão que ela nem respirava, mas sempre “vencia a
professora pelo cansaço” (A época era outra, afinal já se passaram 30 anos,
creio que hoje os professores não resolvam mais a situação desta forma).
Porém, na primeira esquina, após a saída
da escola, ela voltava a ser a menina brincalhona e tagarela, não lembro se
alguma vez chegou a me explicar porque fazia aquilo, talvez quando criança
apenas temos interesse em ser amigo e o
modo diferente dele não é tão importante assim...
A experiência de infância me ajudou muito
a compor a trajetória como professora, pois também tive alunos com essas
características, porém quando meu olhar encontrava o olhar deles, era a imagem
desta garota que ficava entre nós, alguém que poderia ser expressivo e ao mesmo
tempo amplamente expressivo, pois o silêncio é muito mais significativo do que
um turbilhão de palavras. Quem sabe seja uma forma diferente deste indivíduo se
mostrar o quanto ele está presente. Entretanto esses casos sempre me deixaram
intrigada: o que faz uma criança optar pelo Mutismo Seletivo?
Cada uma tem a sua história, algo que
deseja expressar no ato de não falar. Na sala de aula nossa melhor atitude é a
acolhida, promover ações de interação da criança com o grupo e paralelamente a
isso, o encaminhamento para demais profissionais que possam auxiliar no
desenvolvimento deste indivíduo. Mas, acima de tudo, é importante ter o
entendimento do que é o Mutismo Seletivo, portanto segue algumas considerações
sobre o assunto.
De acordo com DSM IV, o Mutismo Seletivo
consiste em um fracasso persistente para falar em situações sociais específicas
(p. ex.:, na escola, com parceiros de brincadeiras) onde seria esperado que
falasse, apesar de fazê-lo em outras situações. A perturbação interfere na
realização escolar ou ocupacional ou na comunicação social, deve durar no
mínimo 1 mês e não estar limitada ao primeiro mês da escola (durante o qual
muitas crianças podem mostrar-se tímidas e relutantes em falar). No Mutismo
Seletivo em vez de comunicarem pela verbalização costumeira, as crianças com
este transtorno podem comunicar-se por gestos, acenando ou balançando a cabeça,
puxando ou empurrando ou, em alguns casos, mediante vocalizações monossilábicas,
curtas ou monótonas, ou em um tom de voa alterado.
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O
DSM-IV define o mutismo seletivo levando em consideração os seguintes itens
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A. Não falar em situações sociais
específicas (onde há expectativa para que fale, ex. escola), apesar de falar
em outras situações
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B. Interfere no desempenho escolar ou
ocupacional ou na comunicação social
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C. Duração mínima de 1 mês (não limitado ao
1º mês de escola)
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D. O fato de não falar não é devido à falta
de conhecimento ou o se sentir à vontade com a língua falada na situação
social (ex. criança que mora em um país e se muda para outro com cultura
totalmente diferente)
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E. Não é devido a um Transtorno de
comunicação (ex. gagueira) e não ocorre durante uma psicose
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Características
e transtornos associados
As características associadas ao Mutismo
Seletivo podem incluir excessiva timidez, medo de passar vergonha, isolamento e
retraimento social, dependência, traços compulsivos, negativismo, acessos de
raiva ou comportamento controlador ou opositivo, particularmente em casa. Pode
haver grave comprometimento do funcionamento social e escolar. Provocações ou
agressões pelos seus pares são comuns. Embora as crianças com transtorno em
geral tenham habilidades normais de linguagem, ocasionalmente pode haver um
Transtorno da Comunicação (p. ex. Transtorno Fonológico, Transtorno da
Linguagem Expressiva ou Transtorno Misto da Linguagem Receptivo-Expressiva) ou
uma condição médica geral que cause anormalidades da articulação. Retardo
mental, hospitalização ou estressores psicossociais extremos podem estar
associados com o transtorno. Além disso, em contextos clínicos, as crianças com
Mutismo Seletivo quase sempre recebem um diagnóstico adicional de Transtorno de
Ansiedade (especialmente Fobia Social).
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Características do indivíduo com Mutismo
Seletivo:
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Dificuldade em manter contato visual;
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Em público ou em determinados locais não sorriem;
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Mostram-se indiferente quando solicitados que respondam a alguma pergunta, ou
uma saudação, uma despedida ou um agradecimento;
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Entendem o idioma falado e têm habilidade para falar normalmente;
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Em casos típicos, falam com os pais e selecionam outras pessoas com as quais
irão manter contato verbal; Em alguns casos, não falam com certos indivíduos
do círculo familiar;
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A maioria não fala na escola e em outras situações longe do convívio
familiar;
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Seu processo de aprendizagem é adequado para sua idade escolar, na maioria
dos casos;
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Muitos participam de atividades não verbais;
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Estas crianças podem responder, acenando com a cabeça, apontando ou permanecendo
imóveis até que alguém “adivinhe” o que elas querem;
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A maioria destas crianças expressa um grande desejo para falar em todas as
situações, mas é incapaz devido à ansiedade, medo timidez e embaraço;
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-Às
vezes, a criança é vista como tímida e é suposto que a timidez é temporária e
será superada.
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Fonte:
adaptação do site http://www.psiqweb.med.br/site/?area=NO/LerNoticia&idNoticia=298
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Para ajudar a criança é respeitá-la e
promover ações que possam:
1
– Diminuir sua ansiedade
- Com uma atitude receptiva, acolhedora,
afetuosa e com bom humor; Entretanto sem exercer nenhuma pressão para fazê-la
falar; Inspirar confiança, dizendo que compreende quando não consegue expressar
as palavras, mas que vai conseguir quando se sentir segura e que estará ali
para ajudá-la.
2
– Reforçar sua confiança e sua autoestima
- Integrando-a nas atividades da aula na
medida do possível;
- Estimulando-a e reforçando todas as suas
atitudes positivas;
3
– Trabalhar com o auxílio dos pais e de demais profissionais visando estimular
a expressão oral na escola.
É preciso entender que a criança que
mostra-se muda seletiva não pode passar facilmente do mutismo (ansiedade severa
da comunicação) à palavra (ansiedade muito reduzida da comunicação).
Fonte:
AMERICAN
PSYCHAITRIC ASSOCIATION. Manual
Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais. DSM-IV.
Porto Alegre, Artmed, 2000.
Prado EST, Revers MC, Marrocos RP. Mutismo seletivo. Ou eletivo? Casos
Clin Psiquiatria [online]. 2008; 10:[13 p.] www.abpbrasil.org.br/medicos/publicacoes/revista
Ximenes BAA, Ballone GJ - Mutismo Seletivo, in. PsiqWeb,
internet, disponível em http://www.psiqweb.med.br/, 2009



