Oliver Sacks é um neurologista que
encontrou na escrita uma forma de tornar a ciência mais simples e mais acessível
para o público em geral, ele transforma
intencionalmente os relatos clínicos em artefatos literários, mostrando os
sofrimentos e experiências de personagens singulares, desvelando novas
realidades para a investigação científica e problematizando os limites entre o
físico e o psíquico.
Em “O
homem que confundiu sua mulher com um chapéu”, Sacks relata casos
interessantíssimos de lesões cerebrais. de seus pacientes, em especial do
hemisfério direito, isso porque ele fala que as síndromes desse lado do cérebro
são menos distintas e perceptíveis do que os danos ocorridos no hemisfério
esquerdo. Também as síndromes do hemisfério direito estão mais relacionadas com
os distúrbios neurológicos que afetam a essência do indivíduo e sua
sensibilidade emocional e psicológica. E é dessa relação que ele destaca no
livro, síndromes que poderiam ser consideradas como uma patologia fisiológica
no cérebro e, como tal, ser diagnosticada e tratada, quando possível, pela
medicina como uma deficiência cerebral do sujeito. Para ele, não basta somente diagnosticar o caso, o
importante entre a relação médico-paciente é “entender” como se processa esse
distúrbio, e isso só é possível quando o médico acompanha de forma mais
expressiva o cotidiano do paciente, investigando as causas aparentes e evolução
desse distúrbio no mesmo. Conforme Sacks, infelizmente na atualidade vivemos um
paradoxo, tendo uma medicina avançada tecnologicamente podendo mapear cada
centímetro do nosso corpo, até mesmo do cérebro, reconhecendo onde está alojado
cada enfermidade ou distúrbio na fisiologia do indivíduo, mas essa mesma
medicina não o integra como pessoa, não consegue interagir com esse indivíduo
como uma pessoa única que tem um nome, uma vida que está relacionada a essa
patologia, e não somente um corpo dissecado pela ciência para analisar suas
partes.
Na primeira parte, intitulada “Perdas”, são as histórias de pacientes com lesão ou mau funcionamento das áreas
gnósicas do cérebro que refletem em perdas das funções de interpretação do
indivíduo, como no capítulo do Homem que Confundiu sua Mulher com o Chapéu que
deu origem ao nome do livro, que lesou as áreas de memória visual e partes da
área visual e não reconhece mais pessoas, lugares ou objetos, somente entende
as formas abstratas e geométricas sem conseguir relaciona-las com suas
memórias.
Na segunda parte, “Excessos”, são
relatados os casos de pessoas que por um desequilíbrio ou lesão do cérebro
passaram a exercer com exagero algumas funções, como no caso do paciente com
Síndrome de Tourette com distúrbios que o levam a excitação das emoções e
paixões em demasia, fazendo com que sinta raiva demais, alegria demais,
exaltações que não consegue controlar normalmente, vivendo sempre no excesso de
suas emoções.
Já terceira parte, “Transportes”, são retratados casos de pessoas com anormalidades nos lobos temporais e sistema
límbico do cérebro que os transportam através de suas memórias e imagens
mentais para infância ou no mundo dos sonhos, como uma senhora um pouco surda e
que passou a ouvir uma sinfonia particular constante no seu íntimo, do seu
idioma natal, reminiscências de uma infância perdida e que não tinha acesso por
bloqueios psíquicos, o que possibilitou á ela um resgate inestimável de um
período de sua vida que achava não possuir.
E, na última e quarta parte, são relatado casos de pacientes com deficiência mental, a qual chama “O Mundo dos Simples”,
e nos traz um universo de possibilidades, de pessoas consideradas
incapacitadas socialmente e, no entanto, apresentam habilidades extraordinárias
em outras áreas que não intelectual como, na música, pintura e no teatro. A
cada caso, ele apresenta um paciente com uma habilidade específica e que nos
mostra como os seres humanos são providos de muitas potencialidades.