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domingo, 28 de abril de 2013

Hipnose: o poder elástico do cérebro





    A plasticidade do cérebro e outras possibilidades por meio da hipnose moderna trazem um novo caminho para o psicólogo e outros profissionais da saúde, com resultados comprovados e eficazes

   A hipnose é definida como um estado alterado de consciência ampliada, em que o sujeito permanece acordado todo o tempo, experimentando sensações, sentimentos, talvez tendo imagens, regressões, anestesia, analgesias e outros fenômenos enquanto está nesse estado. Assim, poucas palavras têm o poder de despertar reações tão hipnóticas quanto o próprio termo hipnose. A prática moderna da hipnose se estende atualmente por diversas áreas, como a Medicina, a Odontologia e a Psicologia. Podemos afirmar que a sua utilização se encontra presente em toda história da humanidade. Os acontecimentos chamados hipnóticos fazem parte da vida dos seres humanos continuamente. Todos os dias e a cada instante estamos embutidos nesse chamado “estado alterado de consciência”.

    Algumas pessoas a consideram um embuste ou algo que só serve para fazer com que alguém tenha ações específicas: agir como animais ou provar alimentos picantes. Há quem acredite que cura todos os tipos de patologias e há aqueles que a acham tão perigosa que deveria ser completamente abandonada.

   O Dr. Milton Erickson estudou profundamente a hipnose e seus fenômenos durante toda sua vida, demonstrando-a como um fenômeno natural da mente humana, bem como sua existência e efeitos no cotidiano. Uma das suas contribuições para a Psicologia foi o conceito de utilização da realidade individual do paciente, a terapia naturalista, as diferentes formas de comunicação indireta, a técnica de confusão e de entremear. Dessa forma, o legado do Dr. Erickson contribuiu para diversas escolas e campos de conhecimento que tratam da relação entre cognição, comportamento e atividade do sistema nervoso em condições normais ou patológicas, como o caso da própria neuropsicologia, que tem caráter multidisciplinar e apoio na Anatomia, Fisiologia, Neurologia, Psicologia, Psiquiatria e Etologia, entre outras ciências. Assim, a questão que fica: seria possível promover a reabilitação neuropsicológica pelo princípio da plasticidade cerebral através das ferramentas de hipnose?

     A prática moderna da hipnose se estende atualmente por diversas áreas, como a Medicina, a Odontologia e a Psicologia

     A melhor resposta pode ser descrita pelo próprio Milton Erickson, ele mesmo acometido pela poliomielite e suas consequências que o acompanharam durante a vida. Dr. Erickson, em muitos de seus artigos, livros e seminários didáticos, relatava que usava o próprio transe hipnótico como uma forma de manter um estado adequado, sem dor e, consequentemente, viver melhor. Dessa forma, percebemos a autohipnose como uma ferramenta importante nessa intervenção cerebral.

Pesquisas recentes

     As pesquisas atuais estão avançando no sentido de aprofundar os conhecimentos sobre os mecanismos de recuperação funcional, bem como sobre os fatores relacionados às variações interindividuais. Novas abordagens quanto aos dados empíricos permitem delinear uma nova visão do sistema nervoso como um órgão dinâmico, constituindo uma unidade funcional com o corpo e o ambiente.

   Atualmente, quando se fala em reabilitação neuropsicológica, devemos pensar que existem técnicas de reabilitação que podem atuar em níveis diferentes, como o treino cognitivo que trabalha a restauração da função, as estratégias compensatórias (internas ou externas), que atuam no nível da atividade, e participação social, com o intuito de tornar o indivíduo mais participativo. Além disso, é comum nos programas de reabilitação a utilização de diferentes técnicas com cada tipo de paciente, como atendimento individual e em grupo, psicoterapia para ampliação da percepção e aceitação dos déficits, orientação e replanejamento vocacional. O profissional em reabilitação tem de buscar algo que vá ao encontro das necessidades de cada paciente e o contexto biopsicossocial no qual está inserido.

    Partindo do pressuposto de que existem diversas técnicas de reabilitação, o interessante é realizar uma discussão sobre o uso da hipnose enquanto ferramenta em reabilitação neuropsicológica, especificamente atuando em neuroplasticidade.

    A plasticidade cerebral pode ser definida como uma mudança adaptativa na estrutura e função do sistema nervoso que ocorre em qualquer fase do desenvolvimento, como funções de interação com o meio ambiente interno e externo, ou ainda como resultante de lesões que afetam o ambiente neuronal. Além disso, a plasticidade cerebral constitui-se de um processo dinâmico, em que se relacionam as estruturas e suas funções, proporcionando respostas adaptativas que são impulsionadas por desafios do meio ou alguma lesão, se mantendo ativa, em diferentes graus, durante toda a vida inclusive na velhice.

    Os neurocientistas constataram que o grau de neuroplasticidade varia conforme a idade do indivíduo. Como exemplo, durante o desenvolvimento ontogenético, o sistema nervoso é mais plástico. Essa é a fase da vida do indivíduo onde tudo se constrói e se molda de acordo com o genoma e as influências do ambiente. Porém, mesmo durante o desenvolvimento, existe uma fase de maior plasticidade denominada período crítico, na qual o sistema nervoso é mais suscetível às transformações provocadas pelo meio ambiente externo. Após o organismo ultrapassar essa fase e atingir a maturidade, sua capacidade plástica diminui, se modifica, mas não se extingue. Há várias formas de neuroplasticidade, como: regeneração, plasticidade axônica, plasticidade sináptica, plasticidade dendrítica e plasticidade somática.

     Para pensar no poder elástico do cérebro e relacionar com a hipnose moderna empregada pelo Dr. Milton Erickson é necessário verificar, dentro da própria vida deste, uma similaridade curativa, onde essa neuroplasticidade desempenhou um papel de reestruturação nele mesmo, como descrito acima.

     Nessa interrelação sistêmica, entre corpo e ambiente, podemos estabelecer uma percepção avançada ao ver que Dr. Erickson, por si mesmo, desenvolveu um tipo especial de concentração mental para qualquer movimento mínimo, refazendo mentalmente cada movimento repetidas vezes, de forma a fazer uma nova ligação de aprendizado entre os fatores pensantes da sua subjetividade e a reação física dos movimentos. A comprovação dessa prática fora descrita nos artigos médicos acadêmicos que ele havia escrito. Outras enfermidades também acompanharam a vida de Erickson, como o daltonismo e a deficiência auditiva, podendo parecer para qualquer pessoa como problemas ou grandes dificuldades para viver. Mas Dr. Erickson descreveu e utilizou destas os seus próprios recursos para desenvolver uma abordagem terapêutica que se tornou reconhecida pela eficácia e elegância de aplicação, utilização e resultados imediatos, além da reabilitação neuropsicológica autoapresentada.

     Erickson estudou profundamente a hipnose e seus fenômenos durante toda sua vida, demonstrando-a como um fenômeno natural.

PRESENTE DE GREGO?

     A hipnose ericksoniana pode ser vista como um “cavalo de troia”, em que é ofertado um presente disfarçado ao sujeito, no qual este, nessa condição, recebe e se faz elaborar internamente questões e ensaios, como uma espécie de trabalho que nasce de dentro, recuperando neurônios ao gerar a plasticidade cerebral necessária para a reabilitação funcional. Através da própria sugestão (autohipnose) ou ao induzir pacientes pelo instrumento da hipnose, podemos criar novas representações subjetivas, novas ressignificações e novas conexões; dessa forma, manter um ambiente interno capaz de promover mudanças ou simplesmente ajudar o sujeito a encontrar recursos internos para auxílio na reabilitação neuropsicológica.

     Uma das formas de aplicação da hipnose elaborada pelo Dr. Erickson está na maestria da utilização da linguagem analógica, por comparação, em que as metáforas, alegorias e anedotas faziam um papel desse “cavalo de troia” mencionado anteriormente, um disfarce linguístico na condução do transe hipnótico.

     Ao observar a forma de trabalho hipnótico do Dr. Erickson, pode-se perceber a clara intenção de ofertar presentes linguísticos ao inconsciente do sujeito hipnotizado. Quando Erickson contava a um paciente sobre o caso de outro paciente, na verdade sua intenção esperada seria que o próprio paciente fizesse a relação com sua história de vida. Se o relato tivesse uma solução ou alternativa para um problema que estava sendo trabalhado, o paciente encontraria relações com esse fato, se comparando ao mesmo e encontrando na sua própria história recursos internos para enfrentamento da situação problema.

    Para ilustrar tal metodologia, podemos citar Rosen (1982), em que o Dr. Erickson utilizava uma passagem de sua própria história, quando criança, com a intenção de estabelecer vínculo com o paciente e permitir que o mesmo falasse de seu problema, com confiança e assertividade necessárias. “É... você sabe, bom... vou iniciar nossa sessão contando um trecho interessante da minha vida... foi assim: ...muita gente estava preocupada comigo porque eu já tinha quatro anos de idade e ainda não falava e uma irmãzinha minha, dois anos mais nova, já falava, e continua falando, mas até agora não disse quase nada. E... muitos ficavam aflitos porque eu era um menino de quatro anos que não podia falar... Minha mãe dizia confiante: ‘vai falar quando chegar a hora’” (ROSEN, 1982, p. 67).

    Novas abordagens quanto aos dados empíricos permitem delinear uma nova visão do sistema nervoso como um órgão dinâmico

    Dessa forma, o paciente poderia elaborar o melhor momento para falar com confiança. Como Rosen (1982) menciona, nesse exemplo se destaca a convicção do Dr. Erickson de que se pode confiar que a mente inconsciente terá as respostas certas no momento oportuno. E, se essa história fosse contada a um paciente que começa a experimentar o transe hipnótico, poderia tranquilizá-lo no sentido de que pode aguardar, sem preocupações, até que apareça o impulso para falar algo relevante, ou até que possa revelar, de uma maneira não verbal, as suas mensagens inconscientes.

    Ao pensar dessa forma, poderíamos trazer a seguinte questão: “O que aconteceria se fosse dada uma relação metafórica para um paciente em reabilitação neuropsicológica de que outra pessoa conseguiu resultados importantes com determinado pensamento ou atividade?”. Se a metodologia e ferramentas aplicadas pelo Dr. Erickson estiverem certas, a reabilitação neuropsicológica estaria sendo auxiliada pela linguagem e comunicação do psicoterapeuta, favorecendo assim a neuroplasticidade e provável recuperação de um paciente.

    Ao tratarmos de conhecimento científico, é necessário enfatizarmos que este pode criar paradigmas, conceitos e visões referentes ao mundo, à maneira como encaramos a nós mesmos, nosso cérebro e as relações externas que nos cercam. A ciência cria modelos teóricos com suas visões sobre como operamos no mundo, desenvolvemos nossa personalidade, construímos nossa subjetividade e o modo como nosso cérebro se desenvolve e se adapta. Tais modelos teóricos estão em constantes mudanças e recriações.

    É justamente nesse ponto que se concebe que o legado de Erickson consiste prioritariamente em um presente de grego, na medida em que convida seus interlocutores às transformações profundas não apenas em suas formas de abordagem terapêutica, mas também a uma revisão crítica de todos os momentos e situações onde o conhecimento se constrói.

    O profissional em reabilitação tem de buscar algo que vá ao encontro das necessidades de cada paciente

PAPEL DO TERAPEUTA

     Em Psicologia, podemos levar esse conhecimento a novos caminhos, indo além de simples acolhimentos a pacientes com lesões funcionais, mas podendo influenciar positivamente na reconstrução e reabilitação do sujeito atendido.

    O papel do psicólogo como profissional deve carregar um arquétipo de curador, em que sua figura traz conforto, aceitação e, principalmente, a esperança de recuperação. Neste momento, fica a importância de esse profissional perceber que o ser humano é constituído pelo princípio do biológico, psicológico e social. Naturalmente, através da constante pesquisa e desenvolvimento de novas técnicas, nós, os psicólogos, podemos agregar mais e ajudar outros profissionais da área médica na recuperação de pacientes com lesões neuropsicológicas.

      Quando consideramos a hipnose como instrumento ou simplesmente como uma forma de comunicação, abre-se a escolha para todas as linhas terapêuticas, seja comportamental, humanista, psicanalista ou cognitiva. Partimos do pressuposto de que, para atuar, o psicólogo precisa se comunicar e comunicação é redundância, sempre estamos comunicando algo. A hipnose moderna, termo considerado após Erickson, é uma forma de comunicação elegante, às vezes formalmente, com os olhos fechados em profundo estado alterado de consciência ou simplesmente de forma coloquial, como uma conversa, ao contar uma história ou relatar um fato, pode trazer dentro desse conto uma semente de mudança em reabilitação. O poder elástico do cérebro, sua plasticidade e outras possibilidades através da hipnose moderna trazem um novo caminho para o psicólogo e outros profissionais da saúde, com resultados comprovados e eficazes. Ignorar esse conhecimento pode significar ignorar as próprias condições do ser humano e do profissional psicólogo, onde a curiosidade por novas descobertas trará novos resultados no futuro.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Há um período crítico para a aquisição da linguagem?


Em 1970, uma menina de 13 anos chamada Genie (nome fictício) foi descoberta em um subúrbio de Los Angeles. Vítima de violência por parte do pai, ela foi confinada por quase 12 anos em um pequeno quarto na casa dos pais, amarrada a uma espécie de “troninho”(vaso sanitário) e isolada do contato humano normal. Ela pesava só 29,5 kg, não conseguia esticar braços ou as pernas nem mastigar, não tinha controle sobre a bexiga e os intestinos e não falava. Reconhecia apenas seu nome e a palavra sorry (desculpe).
Exatamente três anos antes, Eric Lenneberg sugeriu que há um período crítico para a aquisição da linguagem, que começa no início do primeiro ano de vida e termina próximo à puberdade. Lenneberg argumentou que seria difícil, ou até impossível, uma criança que ainda não tivesse adquirido a linguagem fazê-lo após aquela idade.
A descoberta de Genie acabou propiciando um teste da hipótese de Lenneberg. Genie poderia aprender a falar, ou já era muito tarde?
EXPRESSE SUA OPINIÃO SOBRE O CASO...

   O National Institutes of Mental Health (NIMH) iniciou um estudo, e um grupo de pesquisadores assumiu o comando dos cuidados de Genie, aplicando-lhes vários testes e treinamento intensivo da linguagem.
   O progresso de Genie durante os anos seguintes (antes de o NIMH suspender o financiamento e a mãe recuperar a custódia e isolá-la do contato com os profissionais que a ensinavam) tanto desafia quanto sustenta a ideia de um período crítico para a aquisição da linguagem. Genie aprendeu algumas palavras simples e podia juntá-las em sentenças primitivas, mas regradas. Ela também aprendeu os fundamentos da linguagem de sinais. No entanto, nunca usou a linguagem normalmente, e “seu discurso permaneceu, na maior parte, como um telegrama um tanto confuso”. Quando sua mãe, incapaz de cuidar dela, a entregou a diversos lares adotivos violentos, ela retornou ao silêncio total.
   Estudos de caso como os de Genie e Victor, o menino selvagem de Aveyron, ilustram a dificuldade de aquisição da linguagem depois dos primeiros anos de vida; entretanto, por haver tantos fatores complicadores, eles não permitem chegar a conclusões definitivas sobre a possibilidade dessa aquisição. Por causa da plasticidade do cérebro, alguns pesquisadores consideram os anos que antecedem a puberdade um período mais sensível que crítico para o aprendizado da linguagem.  As pesquisas de imagens do cérebro revelam que, apesar de as partes do cérebro mais adequadas ao processamento da linguagem  serem danificadas no desenvolvimento da linguagem próximo ao normal pode continuar à medida que outras partes do cérebro assumem o comando.
    De fato, acontecem mudanças na organização e na utilização do cérebro ao longo do aprendizado normal da linguagem. Neurocientistas também observaram diferentes padrões da atividade cerebral durante o processamento entre pessoas que aprendem Língua de Sinais, como linguagem nativa e aquelas que aprenderam como segunda língua, após a puberdade.
    Outra pesquisa concentrou-se em um período mais curto no começo da vida. Em algum momento, entre 6 e os 12 meses, os bebês normalmente começam a se “especializar” em perceber os sons de suas línguas. Em um estudo, bebês que, aos 7 meses, já tinham desenvolvido essa percepção fonética especializada, dois anos mais tarde apresentaram habilidades de linguagem mais avançadas do que bebês que aos 7 meses eram mais capazes de discriminar sons não nativos. Essa pesquisa, sugerem os pesquisadores, pode apontar para a existência de um período crítico para a percepção fonética: se os bebês não começam a se concentrar exclusivamente nos sons de suas línguas nativas durante aquele período, seu desenvolvimento da linguagem é desacelerado. Isso talvez explique por que o aprendizado de uma segunda língua na idade adulta não é tão fácil quanto nos primeiros anos da infância.
    Se existe um período crítico quanto um período sensível para o aprendizado da linguagem, o que explica isso? Os mecanismos do cérebro para a aquisição da linguagem declinam à medida que o cérebro amadurece? Isso poderia parecer estranho, já que outras habilidades melhoram. Uma hipótese alternativa é que esse aprimoramento na sofisticação cognitiva interfere na capacidade de um adolescente ou de um adulto aprender um idioma. As crianças pequenas adquirem a linguagem em pequenos blocos, que podem ser prontamente aprendidos. Os mais velhos, quando começam a aprender um idioma, tendem a absorver grande quantidade de uma vez e podem ter problemas para analisar e interpretar essas informações.

Estudo de caso extraído do livro O mundo da Criança

O acompanhamento completo do caso de Genie, se encontra neste link (porém em inglês) http://kccesl.tripod.com/genie.html
E para quem deseja saber mais sobre as alterações da linguagem na infância, tem este outro link aqui (também em inglês) www.alphadictionary.com/articles/ling001.html

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Plasticidade cerebral

Uma das últimas investigações da neurociência demonstram
que o cérebro pode se regenerar mediante seu uso e potenciação.
A chave para alcançar o sucesso se chama:

“NEUROPLASTICIDADE”
que é moldar a mente, o cérebro, através de uma ou várias atividade(s).

    Plasticidade cerebral é a denominação das capacidades adaptativas do Sistema Nervoso central – sua habilidade para modificar sua organização estrutural própria e funcionamento. É a propriedade do sistema nervoso que permite o desenvolvimento de alterações estruturais em resposta à experiência, e como adaptação a condições mutantes e a estímulos repetidos.
    Há alguns anos admitia-se que o tecido cerebral não tinha capacidade regenerativa e que o cérebro era definido geneticamente, ou seja, possuía um programa genético fixo. No entanto, não era possível explicar o fato de pacientes com lesões severas obterem, com técnicas de terapia, a recuperação da função. O aumento do conhecimento sobre o cérebro mostrou que este é muito mais maleável do que até então se imaginava, modificando-se sob o efeito da experiência, das percepções, das ações e dos comportamentos
“A cada nova experiência do indivíduo, redes de neurônios são rearranjadas, outras tantas sinapses são reforçadas e múltiplas possibilidades de respostas ao ambiente tornam-se possíveis.” (Michael Merzenich)

  O pintor de 41 anos Huang Guofu, natural de Chongqing, na China, aprendeu a dominar o pincel com a boca e com o pé direito depois de ter perdido ambos os braços em um acidente de choque elétrico quando possuía apenas 4 anos de idade.
    O acidente, porém, não o impediu de seguir seus sonhos, e aos 12 anos, começou a pintar com os pés. O talentoso artista lembra que no início suas obras não se pareciam em nada com o que ele pretendia pintar, mas, como o passar dos anos, suas habilidades melhoraram consideravelmente.

sábado, 17 de novembro de 2012

Plasticidade Cerebral de crianças nascidas prematuras

Adolescentes nascidos prematuramente podem ter dificuldades cognitivas e de aprendizagem devido a alterações sutis na neuroquímica cerebral, microestrutura e / ou conectividade neural. Adolescentes nascidos antes ou na  37ª semana também têm baixos níveis de cortisol, um hormônio que desempenha um papel crucial na consolidação de novos conhecimentos.


   Uma nova pesquisa da Universidade de Adelaide tem demonstrado que os adolescentes nascidos prematuramente podem sofrer problemas de desenvolvimento cerebral que afetam diretamente a sua memória e capacidade de aprendizagem. Esta pesquisa, conduzida por doutores  da Universidade de Adelaide Robinson Institute, mostra reduzida "plasticidade" nos cérebros de adolescentes que nasceram prematuros (antes ou às 37ª semanas de gestação). Os resultados da pesquisa foram publicados hoje no Journal of Neuroscience .
     "Plasticidade do cérebro é fundamental para o aprendizado e a memória por toda a vida", diz a Drª. Jarro. "Ele permite que o cérebro  reorganize-se, respondendo às mudanças de comportamento, meio ambiente e estímulos, modificando o número e a força das conexões entre os neurônios e áreas diferentes do cérebro. Plasticidade é também importante para a recuperação de danos cerebrais".
    "Nós sabemos de pesquisas anteriores que crianças nascidas pré-maturas, muitas vezes, apresentam dificuldades no desenvolvimento motor, cognitivo e  na aprendizagem. O crescimento do cérebro é rápido entre as 20ª e 37ª semanas de gestação, e nascer prematuro pode alterar significativamente a microestrutura do cérebro, conectividade neural e neuroquímica".
     "No entanto, os mecanismos que ligam esta fisiologia cerebral alterada com resultados comportamentais - como problemas de memória e de aprendizagem - têm permanecido desconhecido", diz a Drª. Jarro.
     Os pesquisadores compararam os adolescentes nascidos prematuros com os nascidos em tempo normal. Usaram uma técnica não-invasiva de estimulação magnética do cérebro, induzindo respostas do cérebro para se obter uma medida da sua plasticidade. Os níveis de cortisol, normalmente produzidas em resposta ao stress, também foram medidos para melhor compreender as diferenças químicas e hormonais entre os grupos.
     "Os adolescentes nascidos prematuros mostraram claramente neuroplasticidade reduzida em resposta à estimulação do cérebro," diz a Drª. Jarro. "Adolescentes prematuros também tinham níveis baixos de cortisol na saliva, o que foi altamente preditivo desta resposta cerebral reduzida. Muitas vezes as pessoas associam o aumento do cortisol ao estresse,  mas flutua acima e abaixo normalmente, ao longo de cada período de 24 horas e isso desempenha um papel crítico na aprendizagem, na consolidação de novos conhecimentos na memória e na posterior recuperação dessas memórias. Isso pode ser importante para o desenvolvimento de uma possível terapia para superar o problema neuroplasticidade”, diz ela.
     Portanto, as alterações cognitivas de bebês nascidos prematuros, em geral surgem mais tardiamente, afetam especialmente funções cognitivas, como a memória e/ou linguagem, envolvendo principalmente a função de processamento simultâneo e o processamento de informações complexas que requerem raciocínio lógico e orientação espacial e que podem estar associadas a perturbações de déficit de atenção.
     O presente estudo vem ressaltar o que Zomignani et al (2009, p. 203) já haviam publicado sobre o desenvolvimento cerebral de recém- nascidos prematuros,
... a prematuridade pode levar a alterações anatômicas e estruturais do cérebro devido à interrupção das etapas de desenvolvimento pré-natal, a qual prejudica a maturação desse órgão no período pós-natal. Tais alterações podem causar déficits funcionais e as crianças nascidas prematuramente estão mais sujeitas a problemas cognitivos e motores, assim como às suas repercussões nas atividades de vida diária e nas atividades escolares, mesmo na adolescência e idade adulta.


Fonte:
ZOMIGNANI, Andrea. ZAMBELLI, Helder. ANTONIO, Maria. Desenvolvimento cerebral em recém-nascidos prematuros. Revista Paul Pediatrica. 2009. Disponível on line em > http://www.scielo.br/pdf/rpp/v27n2/13.pdf

domingo, 7 de outubro de 2012

Plasticidade Cerebral e Podas Neuronais (Apoptose)


Imagem: http://www.bluesci.org/?p=6631
      Durante muitos anos predominou a crença de que após o nascimento os neurônios eram incapazes de se recuperar de lesões e não tinham como se auto reproduzir. Porém, com o avanço da ciência, sabe-se que esta teoria não é totalmente verdadeira. Os neurônios são capazes de se modificar durante toda a vida e até mesmo se auto reproduzir em alguns locais do cérebro. A Plasticidade Cerebral, como é conhecida esta capacidade adaptativa do SNC (Sistema Nervoso Central), é a habilidade para modificar a organização estrutural e funcional em resposta à experiência (estímulos ambientais).
     Conforme estudos de BRUNO NETO [2007], a Plasticidade Cerebral poderá ocorrer através de: è eliminação de neurônios que não estão sendo utilizados; è modificação do dinamismo morfológico e funcional daqueles neurônios que são utilizados, através do crescimento dos seus dendritos e axônios; è modificação das estruturas envolvidas nas sinapses (dendritos, espinhas dendríticas, terminal axônico); è formação de novas sinapses; è modificação na produção das substancias neurotransmissoras.
     Nosso cérebro é uma obra de arte em constante construção, a cada nova aprendizagem, novos circuitos neuronais são ativados, novas sinapses são formadas, eis aí a plasticidade. Cada neurônio envolvido neste ativo processo, aumenta seu vigor funcional, reduzindo assim, a possibilidade de ser eliminado através da “apoptose”.
     “Apoptose” é uma espécie de suicídio dos neurônios, um processo de poda dos mesmos (fortalecimento de sinapses necessárias à via e perda de sinapses menos importantes), uma vez que alguns deles não estão em constante uso; Sendo assim, após um determinado tempo, faz-se o desligamento de alguns, para dar espaço para outros neurônios que estejam em constante uso poderem se desenvolver com maior eficiência. Alguns autores apontam que a cada ciclo de 7 anos, em média, nossa psique sofre modificações internas pelas podas neuronais e vivencias comportamentais onde recebemos influencias do meio em que vivemos, afetando assim nossa subjetividade e nos tornando indivíduos permanentemente mutáveis.
    Uma das  primeiras podas neuronais, se dá na primeira infância, ao nascer  o cérebro desenvolve muitas ramificações neuronais afim de que a criança possa se desenvolver em toda e qualquer área, mas com o passar do tempo algumas ramificações são utilizadas mais que as outras, e assim as menos ou nunca utilizadas, passam pela primeira poda neuronal, o próprio cérebro descarta todos os neurônios que até então não foram utilizados de forma adequada. Conforme cartilha emitida pela OEA – Organização dos Estados Americanos (2010, p. 29-30),
Durante a etapa pré-natal e a primeira infância, o cérebro produz muitos mais neurônios e conexões sinápticas de que chegará a necessitar, como uma forma de garantir que uma quantidade suficiente de células chegue a seu destino e que conectem-se de forma adequada. No entanto, para se organizar, o sistema nervoso programa a morte celular de vários neurônios (apoptose) e a poda de milhares de sinapses que não estabeleceram conexões funcionais ou que “já cumpriram sua tarefa”. As sinapses que envolvem “neurônios competentes e ativos na rede” são as que permanecerão e a funcionalidade de cada um destes circuitos neuronais é o que nos permitirá aprender, memorizar, perceber, sentir, mover-nos, ler, somar ou emitir, desde respostas reflexas até as mais complexas análises relacionadas à física quântica.

        Outro período  de poda neuronal se dá na adolescência e pode levar anos até se concretizar por completo.
   Muitos estudos estão apontando para que casos como Autismo e Esquizofrenia estejam relacionados com a poda neuronal, a um menor número de podas, com conexões errôneas entre os neurônios, pois em alguns casos o autismo tem suas características mais salientes por volta dos 2 anos e a esquizofrenia manifesta-se na adolescência, sendo que estas duas fases ocorrem grandes podas neuronais. Conforme LAGE (2006), em entrevista com Mercadante,
O autismo costuma aparecer antes dos três anos, nessa idade, diz Mercadante, há uma "poda neural" que reestrutura o cérebro. Suspeita-se que, nos autistas, essa "poda" seja diferente, alterando alguns circuitos cerebrais. Por isso, crianças autistas podem regredir e até parar de falar nessa idade.
     Também falando sobre podas neurais, o site Innatia, traz um artigo sobre o assunto, de onde faço  a transcrição do mesmo:
O cérebro humano está em construção até o final da adolescência, de acordo com vários especialistas.  Segundo o pediatra americano Jay Giedd, diretor do Instituto Nacional de Saúde Mental, em Bethesda (EUA), o cérebro humano está em constante crescimento (construção), até o final da adolescência. O pesquisador apresentou os resultados de seu estudo em Barcelona. Este analisou mais de 2.000 pessoas com idade entre 3 e 25 anos, o que lhe permitiu observar que, no final da infância, o cérebro passa por um aumento 'inconcebível' de neurônios e conexões neurais, que em seguida são reduzidos durante a adolescência. Esta "poda" neural, que culmina com a passagem da adolescência para a idade adulta, que ocorre primeiro na parte de trás do cérebro e, finalmente, no córtex frontal, que é o que controla o raciocínio, tomada de decisão e controle emocional. A descoberta desmente a tese de que o cérebro começa a ficar totalmente maduro entre 8 e 12 anos e explica a questão por que muitos adolescentes não começam a pensar e se comportar como adultos a uma idade tão avançada que às vezes ultrapassa 20 anos, de acordo com o pesquisador. Ele também descobriu que o corte neuronal ocorre mais cedo nas meninas do que em meninos e nos jovens mais inteligentes, ela ocorre em uma idade mais jovem.  Enquanto isso, Ignacio Morgado, professor de Psicobiologia da Universidade Autônoma de Barcelona (UAB) e coordenador da conferência, diz que a maneira de pensar e de processamento de informação para as mulheres e homens são diferentes, mas o resultado final é o mesmo, embora ela atinge o interior diferente. Ele também investiga que as mulheres são mais sensíveis para o emocional, e mais abrangentes sobre as desgraças dos outros, o que as torna mais propensas a sofrer de doenças subjacentes, emocionais, tais como ansiedade ou depressão. Em qualquer caso, Morgado acredita que ainda há muito a ser descoberto sobre as diferenças cerebrais entre homens e mulheres.

Referência Bibliográfica:


GIEDD. Inside the Teenage Brain. Full interview available on the web at: http://www.pbs.org/wgbh/pages/frontline/shows/teenbrain/interviews/giedd.html

LAGE, Amarilis. Igual mas diferente. 2006. Disponível em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/equilibrio/eq2707200601.htm 

National Institute of Mental Health (2005) The Adolescent Brain: a work in progress. Available on line at  www.thenationalcampaign.org/resources/pdf/BRAIN.pdf

OEA – Organização dos Estados Americanos. Primeira Infância: Um olhar desde a Neuroeducação. EUA: OEA, 2010.