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domingo, 12 de maio de 2013

Controle emocional e TFE (Terapia focada na emoção)

Ana Lúcia Hennemann
 


         As emoções estão presentes em todo desenrolar da história humana, embora algumas vezes tentam passar despercebidas, pois somos sujeitos “treinados” a não demonstrá-las. Expressões tais como: - “o que acontece em casa, não se leva ao trabalho, nem o que acontece no trabalho se leva para casa”, são indicadores que temos que nos “robotizar”. Contudo,  a própria  ficção científica vem querendo “humanizar” seus robôs, atribuir-lhes sentimentos. Por exemplo: A.I. Inteligência Artificial é um filme em que uma equipe de cientistas decidiu construir robôs crianças com sentimentos humanos, sendo que o garoto David Swinton (interpretado por Haley Joel Osment) passou por uma  jornada emocional intensa. No caso aqui, tratava-se de um robô, mas e quanto a nós, quantas jornadas emocionais enfrentamos no contexto. Ainda conseguimos distinguir emoções de trabalho separadas das do lar? Será que somos tão equilibrados quanto realmente demonstramos ser?
      Falar de emoções não é falar de nenhuma novidade, pois Platão já as considerava como parte de uma metáfora em que o cocheiro tenta controlar dois cavalos: um é facilmente domável e não precisa ser conduzido, enquanto o outro é selvagem e possivelmente perigoso. Alvarenga (2007, p. 15) ao falar da importância das emoções nos diz que:

Para diminuir a força das emoções, fomos educados, ou melhor, domesticados como qualquer animal selvagem. Classificadas como processos de segunda classe, nossos pais e professores nos ensinaram a conter a manifestação de nossas emoções. Uma vez treinados e domesticados, sentimos vergonha e culpa, quando, sem querer, as expressamos diante dos outros; de outra forma: fomos treinados para domar o animal que habita o interior do organismo. Presos à classificação dual (bom e mau, Deus e Demônio, bonito e feio, forte e fraco, inteligente e idiota), fomos incentivados a expressar o visto como oposto às emoções, ou seja, nossos pensamentos. Classificamos e passamos a acreditar na nossa categorização que a razão (cognição) é a parte divina nossa, a valorizada e importante para o ser humano.


     No entanto são nossas emoções que nos trazem lembranças de nossas necessidades, nossas frustrações, alegrias e projeções, nos levam a fugir de situações difíceis ou querer ficar acolhidos dentro de situações que nos dão prazer. Entretanto alguns sentem sobrecarga de suas emoções e em muitos momentos tem dificuldades de lidar com elas e eis aí que surge a necessidade da regulação emocional, pois o contrário, a desregulação emocional pode levar o indivíduo a queixar-se, provocar e atacar ou isolar-se se afastando dos outros. Muitos podem achar que conseguem por si só, fazer este reequilíbrio, mas por outro lado pode levar a um caminho mais doloroso, pois o fato de tentar descobrir o que está acontecendo consigo, pode levar o indivíduo à depressão, ao isolamento, à inatividade, a um processo de ruminação (pensamentos negativos, repetidos sobre o passado ou o presente). A desregulação emocional seria a dificuldade ou inabilidade de lidar com experiências ou processar as emoções, podendo se manifestar como intensificação excessiva quanto desativação excessiva das emoções. 
        Por exemplo, Leahy, Tirch & Napolitano (2013) explicam que a intensidade emocional pode se tornar tão insuportável para alguns que um “tempo limite” autoimposto é, às vezes, a intervenção de primeira linha, como no caso do comportamento de automutilação, onde a desregulação emocional utiliza-se deste mecanismo negativo como forma de reduzir as emoções intensas. A automutilação libera endorfinas, que temporariamente reduzem a intensidade emocional negativa da ansiedade e da depressão.
      Todos vivenciamos emoções de vários tipos e tentamos lidar com elas de maneiras tanto eficazes quanto ineficazes. Leahy, Tirch & Napolitano (2013) nos dizem que o verdadeiro problema não é sentir ansiedade, e sim nossa capacidade de reconhecê-la, aceita-la, usá-la quando possível e continuar a funcionar apesar dela. Sem emoções, nossas vidas não teriam significado, textura, riqueza, contentamento e conexão com outras pessoas. As emoções nos lembram de nossas necessidades, nossas frustrações e nossos direitos – nos levam a fazer mudanças, fugir de situações difíceis ou saber quando estamos satisfeitos. Ainda assim, há muitas pessoas que se sentem temerosas dos sentimentos e incapazes de lidar com eles por acreditar que a tristeza e a ansiedade impedem um comportamento efetivo.
      O avanço neurocientífico nos traz informações sobre a neurobiologia das emoções, sugerindo quais as regiões interrelacionadas no cérebro podem funcionar como circuitos reguladores das emoções, tais como a amígdala, o hipocampo, a ínsula, o córtex cingulado anterior e as regiões dorsolaterais e ventrais do córtex pré-frontal, contudo o que estes estudos na realidade não relatavam é justamente o como regular nossas emoções, como nos tornar mais equilibrados frente determinadas situações.
Na atualidade, está muito em voga a questão da inteligência emocional onde percebemos nossas emoções, procuramos ter habilidades de usá-las para tomar decisões, compreendemos a natureza das mesmas, a fim de descartar interpretações negativas em torno deste assunto e dessa forma poder manejá-las e controlá-las em nosso benefício. Um dos mais consagrados autores que abordam esta questão se faz presente na figura de Daniel Goleman, mas entre ler o como tornar nossas emoções mais “controladas” e ter alguém que nos oriente de como fazer isso, com certeza a segunda opção é a melhor.
     Estudos voltados à neurociência emocional, na teoria do apego e aos conceitos de inteligência emocional apontam para a terapia focada na emoção (TFE) que é uma terapia experimental e humanística, ela é baseada em evidências e empiricamente fundamentada, o terapeuta também pode atuar como um treinador (coach) emocional que ajuda os pacientes a serem mais efetivos e adaptativos no processamento de suas reações emocionais. A TFE sugere que as emoções influenciam a cognição, bem como a cognição influencia as emoções, sendo que as experiências emocionais envolvem alto nível de atividade sintetizada e sincronizada entre os sistemas biológicos e comportamentais humanos.

Fonte:
ALVARENGA, Galeno. O poder das emoções. 2007. Disponível online em www.galenoalvarenga.com.br
LEAHY, Robert.  TIRCH, Dennis. NAPOLITANO, Lisa. Regulação Emocional em Psicoterapia: Um Guia para o Terapeuta. Porto Alegre: Artmed, 2013.