A educação é uma arte em permanente construção. Tem seu
primeiro degrau no olhar sobre a criança de 0 a 6 anos, em creches e
pré-escolas, que cresce em importância à medida que a formação desses sujeitos,
antes majoritariamente a cargo das famílias, é cada vez mais institucionalizada
em creches e pré-escolas.
Contudo, a educação é o feixe central da
interdisciplinaridade que engloba aspectos antropológicos, filosóficos,
biológicos e psicológicos da espécie humana. Transpondo essa colocação para o
foco desta pesquisa, pode-se dizer que o cérebro desempenha o papel deste feixe
na formação do intelecto humano, através de conexões neurais que são a
polarização dos opostos em busca de caminhos para o aprendizado.
Por entender a importância do cérebro no processo de
aprendizagem, consideram-se, aqui, as contribuições da Neurociência para a
formação de professores, com o objetivo de oferecer aos educadores um
aprofundamento a esse respeito, para que se obtenham melhores resultados no
processo de ensino-aprendizagem, especialmente, na educação básica.
A metodologia utilizada caracteriza-se como uma abordagem
exploratória do tema alicerçada em pesquisa bibliográfica em autores
pertinentes, dentre os quais foram citados Assmann (2001), Bear, Connors,
Paradiso (2002), Demo (2001), Fernàndez (1991),Johnson & Myklebust (1983),
Markova (2000), Morim (2007; 2002), Smith (1999), Soares (2003),Sternberg &
Grigorenko (2003) e Vygotsky (1991). Assim, descrevem-se a função e as
finalidades da Neurociência; a relação entre o cérebro e a aprendizagem e as
disfunções cerebrais verbais e não verbais.
1.1 FUNÇÃO E AS FINALIDADES DA NEUROCIÊNCIAS
A Neurociência é e será um poderoso auxiliar na
compreensão do que é comum a todos os cérebros e poderá nos próximos anos dar
respostas confiáveis a importantes questões sobre a aprendizagem humana,
pode-se através do conhecimento de novas descobertas da Neurociência,
utilizá-la na nossa prática educativa. A imaginação, os sentidos, o humor, a
emoção, o medo, o sono, a memória são alguns dos temas abordados e relacionados
com o aprendizado e a motivação. A aproximação entre as neurociências e a
pedagogia é uma contribuição valiosa para o professor alfabetizador. Por
enquanto os conhecimentos das Neurociências oferecem mais perguntas do que
respostas, mas cremos que a Pedagogia Neurocientífica esta sendo gerada para
responder e sugerir caminhos para a educação do futuro.

Ao ignorar as peculiaridades da infância e as bases
necessárias ao seu adequado desenvolvimento, a educação infantil brasileira
caminha entre acertos e experimentações. É alvo fácil de propostas
novidadeiras, por vezes apoiadas em uma visão pseudocientífica, carente de
sustentação mais sólida. A bola da vez são as neurociências, mais precisamente
as ciências cognitivas, que se propõem a promover uma compreensão maior dos
processos de ensino-aprendizagem.
Enquanto pesquisadores de todo o mundo reforçam a tese de
que os primeiros anos são fundamentais para a constituição cerebral, há quem
aponte para os perigos desse determinismo científico e de uma visão que induza
à hiperestimulação infantil.
O futuro da neurociência é brilhante. O perigo é que se
está no pé da montanha e muitas pessoas pensam que já completamos a escalada. É
uma grande montanha e vai levar um século [para que a escalemos]. Não se trata,
contudo, de negar a contribuição das neurociências para a esfera pedagógica. A
própria história da pedagogia como disciplina acadêmica construiu seus
alicerces a partir do diálogo com diferentes saberes. Traz em sua natureza
contribuições que vão da filosofia rousseauniana à Escola Nova da psicologia
experimental; da psicogênese descrita por Piaget (1983); aos estudos antropológicos e, no caso
da pedagogia infantil e, também, à visão recente da sociologia da infância,
difundida na década de 1990, com quase um século de atraso.
A questão não é condenar as neurociências. O importante é
saber se serão encontradas nelas as contribuições para o que parece central:
conhecer o papel da educação infantil. Seu agir educativo deve moldar-se a
partir das referências do ensino fundamental ou buscar caminhos para construir
sua própria identidade? Enfatizar o que a criança já é ou valorizar o que lhe
falta?
Há conflitos de sobra que precisam ser resolvidos e
proposições que parecem transcender a esfera pedagógica e caminhar para um
debate que é também ideológico. Afinal, quais são os mitos e as verdades
extraídos das recentes descobertas das neurociências e o que de tudo isso
interessa à educação, em particular à educação infantil?
Por enquanto, os conhecimentos oferecem mais perguntas do
que respostas, mas cremos que a pedagogia neurocientífica está sendo gerada
para responder e sugerir caminhos para a educação do futuro, mas, como alertou
o pensador Morin (2007) em palestra realizada em São Paulo, a neurociência,
como outros aspectos da evolução humana, carrega em si uma promessa e uma
ameaça. A promessa é de um melhor entendimento dos processos cerebrais. A
ameaça é bastante cinzenta: a de que esse conhecimento possa levar à pior
manifestação totalitária, a de controlar seres humanos com informações advindas
do conhecimento científico.
O foco da educação tem sido o conhecimento a ser ensinado
de maneira mecânica e igual a todos os alunos, sem a devida atenção à individualidade,
numa demonstração de total falta de consciência da força que possuem os modelos
mentais e da influência que eles exercem sobre o comportamento. Por sua vez os
alunos, acostumados a perceber o mundo a partir da visão do docente, aceitam
passivamente essa proposta pedagógica, desempenhando um papel de receptor de
informações, as quais nem sempre são compreendidas e geram conhecimento. Muitas
pesquisas no campo educativo apontam o professor como um dos principais
protagonistas da educação (DEMO, 2001; ASSMANN, 2001; MORIN, 2002).
Entretanto, proporcionar uma boa aprendizagem para o
aluno não depende só do professor, pois é fundamental para uma educação que
pretende ajudar o aluno a perceber sua individualidade, tornando-o também
responsável pelo ato de aprender, proporcionar a otimização de suas
habilidades, facilitar o processo de aprendizagem e criar condições de aprender
como aprender. Nesse contexto conhecer o seu padrão de pensamento pessoal e
saber como usá-lo é o primeiro passo para ser um participante ativo no processo
de aprender. A compreensão de como podemos lidar com certas características
pessoais ajudará o aluno a identificar, mobilizar e utilizar suas
características criativas e intuitivas, pois cada um aprende no seu próprio
ritmo e à sua maneira.
É fundamental que professores estimulem individualmente a
inteligência das crianças, empregando técnicas que permitam a cada aluno
aprender da maneira que é melhor para ele, aumentando sua motivação para o
aprendizado, pois cada pessoa tem de encontrar seu próprio caminho, já que não
existe um único para todos (STERNBERG & GRIGORENKO, 2003). Considerando que
alunos diferentes lembram e integram informações com diferentes modalidades
sensoriais, analisar como as pessoas se relacionam, atuam e solucionam
problemas, identificar os estilos específicos da aprendizagem, torna-se
bastante útil (WILLIAMS, apud MARKOVA, 2000).
Partindo desse pressuposto, ao professor cabe oferecer,
através de sua prática, um ambiente que respeite as diferenças individuais permitindo
que os aprendizes se sintam estimulados do ponto de vista intelectual e
emocional. Daí a necessidade do educador, consciente de seu papel de
interventor responsável pela mediação da informação, buscar estruturar o ensino
de modo que os alunos possam construir adequadamente os conhecimentos a partir
de suas habilidades mentais. E para isso, é imprescindível que conheçam os
significativos estudos da neurociência, uma vez que esses, sem dúvida,
influenciam na compreensão dos processos de ensino e de aprendizagem.
No cérebro humano
existem aproximadamente cem bilhões de neurônios (unidade básica que processa a
informação no cérebro) e, cada um destes pode se conectar a milhares de outros,
fazendo com que os sinais de informação fluam maciçamente em várias direções
simultaneamente, as chamadas conexões neurais ou sinapses (BEAR, CONNORS,
PARADISO, 2002, p. 704).
Se os estados mentais são provenientes de padrões de
atividade neural, então a aprendizagem é alcançada através da estimulação das
conexões neurais, podendo ser fortalecida ou não, dependendo da qualidade da
intervenção pedagógica.
A pesquisa e o interesse em neurociências tem crescido em
resposta à necessidade de, não somente entender os processos
neuropsicobiológicos normais, mas também para respaldar a ciência da educação.
É sabido que ocorrem dificuldades de comunicação entre
neurocientistas e educadores devido à linguagem diversa empregada em suas
terminologias específicas profissionais, bem como a utilização de temas,
métodos, lógicas e objetivos diferentes. No entanto, novos desafios históricos
têm redimensionado e emergidos novos paradigmas, os quais impulsionam a ciência
e a todos aqueles que se preocupam com a integridade humana, nos aspectos
físico, emocional e, em particular, sócio-cultural. Nesse âmbito atuam os
processos sócio-educacionais, cujos reflexos encontram eco na plasticidade das
células cerebrais.

Todas as reflexões
desta pesquisa tiveram como intuito maior compreender e ainda que minimamente,
contribuir na discussão e na procura de respostas de como instrumentalizar o
professor do ensino fundamental, através do conhecimento das conexões neurais e
plasticidade cerebral envolvidos no processo de aprendizagem, visto ser este de
vital importância para todos os seres humanos. Através da aprendizagem, o
indivíduo constrói e desenvolve os comportamentos que são necessários para sua
sobrevivência, pois não há realizações ou práticas humanas que não resultem do
aprendizado.
O estudo dos processos de aprendizagem e de todos os
fatores que os influenciam, constitui um dos maiores desafios para a educação,
pois ao entendê-lo e explicitá-lo, ocorre o desenvolvimento do sujeito dentro
do contexto sócio-histórico, e é através dele que se forja a personalidade e a
racionalidade humana para que o indivíduo esteja apto a exercer sua função
social.
Durante todo
ensino fundamental I, o professor é visto pelo aluno como um exemplo a ser
seguindo e sua opinião é de extrema consideração para o aprendiz. Assim, todo e
qualquer parecer do professor em relação ao aluno, torna proporções
determinantes para a formação da auto-estima do estudante.
Para a sala de aula, para a educação a Neurociência é e
será uma grande aliada para identificar cada ser humano, como único e para
descobrirmos a regularidade, o desenvolvimento, o tempo de cada um.
A Neurociência traz
para a sala de aula o conhecimento sobre a memória, o esquecimento, o tempo, o
sono, a atenção, o medo, o humor, a afetividade, o movimento, os sentidos, a
linguagem, as interpretações das imagens que fazemos mentalmente, o
"como" o conhecimento é incorporado em representações dispositivas,
as imagens que formam o pensamento, o próprio desenvolvimento infantil e
diferenças básicas nos processos cerebrais da infância, e tudo isto se torna
subsídio interessante e imprescindível para nossa compreensão e ação
pedagógica. Os neurônios espelho, que possibilitam a espécie humana progressos
na comunicação, compreensão e no aprendizado. A plasticidade cerebral, ou seja,
o conhecimento de que o cérebro continua a desenvolver-se, a aprender e a
mudar, até à senilidade ou à morte também altera nossa visão de aprendizagem e
educação. Ela nos faz rever o fracasso e as dificuldades de aprendizagem, pois
existem inúmeras possibilidades de aprendizagem para o ser humano, do
nascimento até a morte.
REFERÊNCIAS
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