Falar sobre a Alegoria da Caverna,
descrita por Platão remete-se a vários contextos. A história original fala do
questionamento de Platão sobre como a humanidade se perceberia estando livre. No
link apresentado pelo vídeo “As sombras da Vida”(vide no final do texto), utilizando-se dos personagens
de Maurício de Souza é possível perceber a alusão feita por Platão de forma
moderna e atual, frente aos instrumentos de mídia dos quais se tem disponível.
Sendo assim, a pergunta que se faz é: que
sombras seguimos? Padrões estereotipados de beleza, modo de ser, de agir, de estar
no mundo. As sombras que seguimos são elencadas por nós, ou são a nós
“embutidas”? E na educação? Será que o contexto escolar está livre desse
preceito, ou será que é o mais escravizante de todos?
As cavernas existem,
inclusive dentro do contexto educativo. Em muitos locais o próprio “educador”
reproduz este mito da caverna, dono da verdade, usufruindo-se da metodologia de
Skinner, faz com que seus alunos deem créditos somente ao seu saber, ao seu
modo de ser, seu modo de pensar. Não há lugar para o diálogo, não há lugar para
as dúvidas, existe meramente a reprodução do conhecimento. É uma educação
tradicionalista, onde os alunos que por ali passarem serão ótimos reprodutores
de informações, pois eles não foram induzidos à busca do conhecimento, não houve
dúvidas, somente certezas trazidas pela figura do educador. E nesse momento
questiona-se a sequencia desse sistema. Até onde se terá formadores de
opinião, estudiosos, doutores e novos saberes? Quais serão os novos saberes a
partir de pessoas que não pensam, não inovam, apenas reproduzem uma sombra de
educação?
O mito da caverna mostra-se
questionado em muitos filmes e livros nas diversas formas, citamos, por
exemplo, o filme “Sociedade dos Poetas Mortos”, em que um educador instiga aos
alunos para sua libertação, sair dos moldes pré-estabelecidos da sociedade
daquela época, ir à busca dos seus sonhos, seus ideais, não aceitar tudo que
lhes é transmitido. Leonardo Boff, na sua majestosa sabedoria conta a história
da “Águia e a Galinha” onde fala da descoberta de cada um, quando consegue se
libertar dos moldes da sociedade da qual o indivíduo está inserido. Também
citamos o vídeo “ La Educación Prohibida”, o qual faz o retrato do Mito da
Caverna, dentro do contexto educativo. E dentro do gênero musical, a banda Pink
Floyd, que de certa forma fez um grande
questionamento sobre as escolas e
sociedades reprodutoras de
conhecimentos, enfatizado isso na música “Another Brick In The Wall”.
São muitos os aportes que
poderíamos citar para elucidar tal mito, mas por outro lado nosso foco vem de
encontro à proposta de Freire, a partilha de saberes, o diálogo entre o
educador e o aluno. Uma estrutura, onde ambas as partes saem ganhando, por que
ensinam e aprendem concomitantemente. Ninguém é dono da verdade. Ela é mutável
e esta sempre em transformação. É construída diariamente, levando-se em
consideração os anseios e desejos dos dois.
Reforçando a proposta de
Freire, Cortella (2008, p. 159) nos apresenta um sábio ditado chinês
convidando-nos a questionar sobre o que é partilhar saberes, é cada um carregar
seu pão? Ou cada um dividir suas ideias?
...se dois homens vem
andando por uma estrada, cada um carregando um pão, e, ao se encontrarem, eles
trocam os pães, cada homem vai embora com um, porém, se dois homens vêm andando
por uma estrada, cada um carregando uma ideia, e, ao se encontrarem, eles
trocam as ideias, cada homem vai embora com duas.
Faz-se necessário romper os
mitos da caverna, os mitos da alienação, devem ser estas as práxis de um
verdadeiro educador. Os pães devem se transformar em ideias e com certeza se
multiplicarem, sendo que ações tais como: a mediação do conhecimento, o
despertar no aluno a curiosidade de aprender, a persistência, o despertar para
o mundo todas são propostas de libertação. Cortella (2008) ainda traz o alerta
de transformar as informações em conhecimento, pois estamos na era da
tecnologia, da rápida disseminação de informações e isso exige perspicácia do
educador para saber conduzir os educandos, se faz necessário torná-los
questionadores, indivíduos que não aceitem tudo do modo que lhes é inserido,
mas sim que consigam ultrapassar as barreiras às quais a realidade
aparentemente apresenta.
Nesse fazer pedagógico
também devem ser agregadas as ideias de Becker (2002) que questiona a figura do
educador que não faz pesquisa, pois este é um educador que não tem o que
ensinar. O verdadeiro educador é questionador, é pesquisador, vai à busca dos
conhecimentos científicos, não se deixa contagiar pelo senso comum, sua práxis
se volta para o rompimento dos mitos das cavernas e assim ele encanta seus
alunos e nesse encantar eles também vem em busca dos seus próprios
conhecimentos, suas pesquisas, suas descobertas.
Também dentro desta
perspectiva Gadotti (2003, p.9) ressalta a figura do professor como um
reorganizador de aprendizagens uma vez que:
Ser professor hoje é
viver intensamente o seu tempo com consciência e sensibilidade. Não se pode
imaginar um futuro para a humanidade sem educadores. Os educadores, numa visão
emancipadora, não só transformam a informação em conhecimento e em consciência
crítica, mas também formam pessoas. Diante dos falsos pregadores da palavra,
dos marqueteiros, eles são os verdadeiros “amantes da sabedoria”, os filósofos
de que nos falava Sócrates. Eles fazem fluir o saber - não o dado, a
informação, o puro conhecimento - porque constroem sentido para a vida das
pessoas e para a humanidade e buscam, juntos, um mundo mais justo, mais produtivo
e mais saudável para todos. Por isso eles são imprescindíveis.
Dentro de todas as
perspectivas abordadas podemos dizer que, na atualidade, somente permanece na
caverna aquele que por algum motivo não se permite experimentar novos caminhos,
novas aprendizagens, novas propostas educacionais. Ainda há educadores que
privam seus alunos de ver a luz, de enxergar um mundo com infinitas
possibilidades, mas estes estão fadados a terem suas práticas interrompidas
antes do tempo, pois o mundo se movimenta e faz com que a luz de algum modo
chegue até os educandos. No mesmo local de trabalho em que está aquele que não
investe no conhecimento e somente transmite informação, há também o oposto, e o
brilho deste outro educador com propostas mais desafiadoras, convidativas para
o mundo atual, irá se salientar, fazendo com que os “oprimidos” se organizem
para se libertarem dos “opressores”, e assim as palavras de Freire terão vida,
voz e vez.
- BECKER,
Fernando. A Epistemologia do professor:
o cotidiano da escola. Petrópolis: Vozes, 2002.
- CORTELLA,
Mario Sergio. A escola e o conhecimento:
fundamentos epistemológicos e políticos. São Paulo: Cortez, 2008.
- GADOTTI,
Moacir. Boniteza de um sonho:
ensinar-e-aprender com sentido. Novo Hamburgo: Feevale, 2003.