sábado, 2 de fevereiro de 2013

Uma visão interior do autismo


Eu quero que você pense sobre as diferentes formas de pensar

Temple Grandin
Tradução de Jussara Cunha de Mello 

A FALTA DA FALA - Não ser capaz de falar era uma completa frustração. Se os adultos falassem diretamente comigo eu podia entender tudo o que eles me falavam, mas eu não conseguia colocar as palavras para fora. Era como se fosse um balbucio ou uma grande gagueira. Se eu era colocada numa situação de leve "stress", as palavras às vezes superavam a barreira e conseguiam sair. Minha fonoaudióloga sabia como penetrar no meu mundo. Ela me segurava pelo queixo, me fazia olhar em seus olhos e dizer "bola".

Aos 3 anos de idade, "bola" saiu de minha garganta com grande esforço e soava mais como "bah". Se a terapeuta decidisse exigir muito de mim, eu fazia manha e pirraça. Se ela não exigisse de mim o suficiente, eu não fazia nenhum progresso. Minha mãe e meus professores ficavam imaginando porque eu gritava tanto. Os gritos eram a única maneira que eu tinha para me comunicar. Às vezes eu pensava logicamente comigo mesma, "eu vou gritar agora porque eu quero falar para alguém que não quero fazer determinada coisa".

É interessante que a minha fala se pareça com a fala estressada de crianças pequenas que tiveram tumores removidos do cerebelo. Rekate, Grubb, Aram, Hahn e Ratcheson (1985) descobriram que cirurgias de câncer que tenham lesado "vermis, nuclei e os dois hemisférios do cerebelo" causaram uma perda temporária da fala em crianças normais.

Os sons das vogais eram os primeiros a retornar, e a fala receptiva era normal. Courchesne, Yeung-Courchesne, Press, Hesselink e Jernigan (1988) deram a reportagem que de cada 18 autistas que funcionam num nível de alto a moderado, 14 deles têm o cerebelo menor (cerebellar vermal lobules VI e VII). Bauman e Kemper (1985) e Ritvo et al (1986) também descobriram que os cérebros de autistas tinham um número menor de células "Purkinje" no cerebelo. No meu caso, um exame de Ressonância Magnética revelou anormalidades no cerebelo. Eu sou incapaz de andar em linha reta. O teste feito pela polícia para descobrir se o motorista está bêbado, tipo "ande na linha", não funciona comigo, eu acabo tombando para os lados. Porém minhas reações são normais para outros testes de coordenação motora simples relacionados às funções ou disfunções do cerebelo.

Estímulos vestibulares algumas vezes podem estimular a fala em crianças autistas. Balançar a criança levemente num balanço às vezes ajuda a iniciar a fala (Ray, King & Grandin, 1988). Determinados movimentos suaves, coordenados são difíceis para mim, embora eu pareça bem normal para o observador casual.

Por exemplo, quando eu opero equipamentos hidráulicos que tenham uma série de níveis, eu consigo operar perfeitamente um nível de cada vez. Coordenar os movimentos para operar dois ou três níveis ao mesmo tempo é impossível para mim. Talvez isso explique porque eu tenho tanta dificuldade em aprender a tocar um instrumento musical, embora eu tenha um talento musical nato para melodia e tonalidade. O único "instrumento" que eu consegui aprender é assoviar com minha boca.


APRENDENDO A LER- A minha mãe foi a minha salvação no que diz respeito à leitura. Eu nunca teria sido capaz de aprender pelo método que requer a memorização de centenas de palavras. Palavras são muito abstratas para se lembrar. Ela me ensinou através de fonemas antigos, que não são usados atualmente. Depois que eu trabalhei bastante e aprendi todos os sons, eu fui capaz de ler as palavras. Para me motivar, ela lia uma página e parava subitamente na parte mais empolgante. Eu tinha que ler a próxima sentença. Gradualmente, ela foi lendo menos e menos. A Sra. David W. Eastham do Canadá ensinou seu filho autista a ler, com métodos similares, fazendo uso de alguns métodos montessorianos. Muitos professores pensavam que o menino fosse retardado. Ele aprendeu a se comunicar datilografando e veio a escrever lindas poesias. Douglas Biklen da Universidade de Syracuse, já conseguiu ensinar algumas pessoas autistas não-verbais a escrever fluentemente na máquina de escrever. A princípio, para evitar repetição em uma só tecla, os pulsos são sustentados por outra pessoa.

O método de leitura visual desenvolvido por Miller e Miller (1971) também pode ser de grande ajuda. Para aprender verbos, por exemplo, cada palavra tem as letras desenhadas de forma a parecer ação. Por exemplo, "cair" teria as letras caindo e "correr" teria as letras como se fossem corredores. Esse método precisa ser mais trabalhado e desenvolvido para se ensinar os sons através dele. Seria bem mais fácil aprender os sons se usássemos a foto de um "trem choo-choo" para ensinar o som "ch" e assim por diante.

A princípio eu só conseguia ler em voz alta. Hoje, quando leio silenciosamente, uso uma combinação de visualização instantânea com o som das palavras. Por exemplo, essa frase de revista "muitos pedestres pararam na rua da cidade", é vista por mim instantaneamente como um filme em movimento. As sentenças que contêm palavras mais abstratas como "aparente" ou "incumbiu" são soadas foneticamente.

Quando criança, eu costumava sempre falar meus pensamentos, ou seja, eu "falava sozinha". Isso se dava porque os meus pensamentos pareciam mais reais e mais concretos dessa forma. Ainda hoje quando estou sozinha desenhando, eu costumo falar comigo mesma sobre o projeto. A fala ativa mais áreas do cérebro do que o pensamento.

Quer saber mais sobre o Autismo através dos relatos de Temple Grandin?

Pega na mentira!!!



   Uma vez por semana encontrava certa pessoa, ela sempre com histórias fascinantes, com riqueza dos detalhes, precisão dos dias, horários do acontecido, se foi num dia de sol, ou chuva... enfim, me dei conta de que se  fossemos testemunhas de um crime, com certeza o depoimento dela seria o mais preciso...
    Mas nem tudo que reluz é ouro...e uma destas fascinantes histórias foi o rapto de sua filha por um casal estrangeiro. Essa história ficou latejando em meus pensamentos, pois foi incrível como ocorrera, mas teve um final feliz, pois a criança foi encontrada. E a verdade também...
   Numa oportunidade frente aos familiares desta pessoa, comentei o quanto tinha achado maravilhoso terem encontrado a criança...mas eles me olhavam sem entender nada... achei estranho e fui fazendo toda a narrativa novamente... lógico, "a pessoa" foi tentando de tudo que era jeito mudar de  assunto, mas diante os olhares dos familiares, ela simplesmente olhou e disse:
- Isso foi um sonho que contei para ela!
   Ora pois, “Sonho”, muitos sonhos, toda semana tinha um sonho diferente...que ela nunca lembrava de me falar que eram sonhos...
     Mas a grande verdade é que essa pessoa era uma mitomaníaca e dizer a verdade para ela era um sofrimento. Contava histórias como forma de consolo. Porém o discurso dela é muito diferente daquele do mentiroso ou do fraudador, que tem finalidades práticas. Para estes, o objetivo não é a mentira, sendo esta apenas um meio para outros fins.
     De um lado, o mitômano sempre sabe no fundo que o que ele diz não é totalmente verdadeiro. Mas ele também sabe que isso deve ser verdadeiro para que lhe garanta um equilíbrio inferior suficiente. Em determinado momento, o sujeito prefere acreditar em sua realidade mais que na realidade objetiva exterior. Ele tem necessidade de contar essa história para se sentir tranquilizado e de acordo consigo mesmo.

     A mitomania não pode ser considerada como uma mentira compulsiva, e sim como uma doença que se não tratada pode causar transtornos sérios á pessoa que possui. Em geral, essa manifestação  deve-se à profundida necessidade de apreço ou atenção.
  A maioria dos casos de mitomania, ao serem expostos, tornam-se vergonhosos. Todavia, os que buscam ajuda por vontade própria, pedindo a seus familiares e principalmente aos amigos, são considerados extremamente raros.
   Os mitomaníacos relutam em procurar ajuda psicológica, por isso a importância dos familiares que convivem com ele; pois casos evoluídos  podem levar a distúrbios de bipolaridade e esquizofrenia.
·        Uma criança com tendência a mitomania pode mentir para as coleguinhas que ela teve um final de semana maravilhoso visitou tal lugar, fez isso e aquilo. Então, ela mente especificamente sobre a relação dela com o passeio, como uma necessidade de compensação por uma falta. E, claro, se isso começa a se repetir, a ficar intenso, os pais precisam tomar uma providência de levar aquela criança para fazer uma avaliação.
·        Um homem que nunca se deu bem com as mulheres, que teve dificuldades com relacionamentos interpessoais, ele conta para os amigos que fez isso ou aquilo e que a namorada dele é isso ou aquilo, mas é mentira. E ele não necessariamente mente sobre outros pontos. Ele pode ser muito honesto com relação a questão financeira ou a outras coisas, mas sobre isso ele mente.
·        Adultos têm plena consciência dos nossos atos, mas aqueles que persistem em manter a mentira para benefício da sua imagem pública, para seduzir, para obter algum benefício ou até mesmo para evitar um sentimento de vergonha, há de parar e pensar o que querem da sua própria vida, para onde os leva o caminho que estão seguindo, e se, de fato, é isso que querem.
    Dalgalarrondo (2008), faz menção a uma diferenciação entre mitomania (em menor grau) com “pseudologia fantástica” que tem sido considerada por diferentes autores ora como transtorno da imaginação ou da memória, ora como transtorno do pensamento.  Os indivíduos com pseudologia fantástica têm uma enorme ânsia pela estima dos outros, uma tendência à vida imaginativa muito intensa e, em contraposição, o sentido de realidade relativamente frágil. Além disso, suas personalidades são dotadas de certa teatralidade e sugestionabilidade. A pseudologia fantástica pode ser tanto transitória e passageira como duradoura e estável. A situação clássica é a de um indivíduo solitário, sem familiares ou amigos, que, tarde da noite, aparece no pronto-socorro de um hospital de uma cidade estranha, relatando histórias (às vezes, bizarras) referentes à sua grande importância, sobre como tem sido injustiçado e sobre os infortúnios pelos quais tem passado (Sims, 1995). Ocorre geralmente por sugestão autoinduzida (Sá Júnior, 1988), com mais frequência em pacientes com transtornos da personalidade (principalmente histriônica e borderline).

Fonte:
DALGALARRONDO, Paulo. Psicopatologias e semiologias dos transtornos mentais. Porto Alegre: Artmed, 2008.

Mitos e equívocos sobre o cérebro



Você participaria de um estudo destes?




O ESTUDO DE ZIMBARDO
- Um estudo clássico de 1970 (ZIMBARDO) recrutou universitários do sexo masculino para participarem de um experimento realizado no porão do prédio de psicologia da Universidade de Stanford, reformado para servir como uma prisão fictícia.
- Ele escolheu os voluntários mais estáveis emocionalmente e depois aleatoriamente designou-os para papéis de prisioneiro e guarda...
OS guardas receberam uniformes e cassetetes; os prisioneiros foram trancados em celas e tiveram de usar roupas supostamente humilhantes (batas sem cuecas).
Os participantes começaram a levar excessivamente a sério os respectivos papéis.
- Depois de apenas um dia de “dramatização”, os guardas começaram a tratar cruelmente os prisioneiros; alguns dos prisioneiros se rebelaram e outros começaram a demonstrar grande perturbação.
O desempenho de papéis logo se transformou em realidade...
- A situação deteriorou tanto que Zimbardo teve de interromper o estudo depois de apenas 6 dias, pois até os jovens emocionalmente estáveis, normais e instruídos foram vulneráveis ao poder dos papéis situacionais.
Fonte: GRIGGS, Richard. Psicologia uma abordagem concisa. POA: Artemd, 2009

E AÍ PERCEBERAM QUANTO NOSSAS EMOÇÕES E COMPORTAMENTOS  SÃO INFLUENCIADOS PELO MEIO? OU VOCÊ ACHA QUE NÃO?
- Uma situação que retrata esse estudo  é quando um indivíduo é professor e vivencia o papel de estudante, seja num curso, seja numa faculdade. Ele simplesmente se veste do papel de aluno e muitas vezes expressa o aluno em que ele foi em épocas anteriores...
- Ou mesmo, quantas vezes, quando pais,  desempenhamos a mesma forma de agir que nossos pais tinham conosco...pois na verdade exercemos PAPEIS,  e estes tem impacto sobre nosso desempenho, uma vez que somos seres sociais e existem padrões de comportamento socialmente esperados e são essas definições que influenciam tanto o nosso comportamento quanto nossas atitudes.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Luz no útero controla o desenvolvimento do olho


Créditos da Imagem:Hashem AL-ghaili
 Novas descobertas podem melhorar a compreensão das doenças que causam cegueira em bebês prematuros

    O desenvolvimento adequado do cérebro é altamente dependente de experiências sensoriais no início da vida. A partir do momento em que nascemos, a luz que entraram em seus olhos  começaram a ajustar as respostas das células em seu córtex visual e moldaram o crescimento global de suas vias visuais. Abraços de seus pais e carícias impulsionam o desenvolvimento de seu sistema somatossensorial, o caminho que detecta toque e dor.
     Uma equipe de pesquisadores americanos fornece evidências de que as experiências sensoriais ANTES do nascimento desempenham um papel importante no desenvolvimento do olho. Numa série de experiências realizadas em ratos, eles descobriram que a luz no útero regula o crescimento de vasos sanguíneos e do número de neurônios da retina. Os resultados, publicados na revista Nature , pode melhorar a nossa compreensão de doenças oculares que podem causar cegueira em bebês prematuros.
       O estudo publicado mostrou que fêmeas de ratos que passaram o período de gestação em completa escuridão tiveram bebês com o desenvolvimento do olho alterado. Concluíram que a luz que passa através do corpo e chega ao útero tem um papel importante no desenvolvimento do olho. De acordo com os cientistas, pequenas quantidades de luz seriam necessárias para controlar o crescimento de vasos sanguíneos nos olhos.