Ana Lúcia Hennemann
Assim que recebeu a devolução do teste, o menino olhou e não
se sentiu satisfeito pelo que viu. Criança esperta, daquelas que sempre tem um
feedaback do conteúdo que está sendo estudado. Entretanto, sua destreza e
expertise não foram o suficiente para ajudar-lhe num teste de ciências. Assim
que a professora fez a devolução do mesmo, os olhos do menino, percorreram item
por item, como se procurasse algo que justificasse os acertos que não obteve.
Ficou alguns instantes como se estivesse se reportado a outro
mundo, talvez um local somente dele e o do resultado de sua aprendizagem. O que
se passava naquela massa encefálica? O que fez com que alguém com tantas
capacidades não obtivesse um resultado satisfatório? O semblante da criança era
de dúvida? De descrédito de que aquilo estivesse realmente acontecendo...eram
milhões de pensamentos em frações de segundos, entretanto, só percebeu-se dentro do contexto da sala
quando o colega ao lado veio questionar quantos acertos ele havia feito no
teste. Tentando se libertar da situação que lhe parecia constrangedora,
mencionou qualquer coisa e rapidamente guardou a folha na mochila. Naquele dia,
algo lhe pareceu diferente, não era mais aquela criança risonha e rápida em
tudo... Seus pensamentos estavam longe, muito longe...
A tarde chegou ao final, a noite veio, a manhã passou rápida
demais e novamente mais uma tarde, mais um período letivo...
Discretamente, o aluno alegre e ágil em tudo, deu lugar a uma
criança quieta e que humildemente foi se “aprochegando” até a professora, e antes
mesmo que ela pudesse dar boa tarde a todos, foi interrompida por aquele olhar
de ternura que a fitava enquanto lhe entregava a folha do dia anterior:
- Professora, se você quiser pode corrigir meu teste novamente,
mas está tudo certo, cheguei a casa, pesquisei no meu caderno as respostas.
Quando minha mãe chegou do trabalho ela conferiu e está tudo certo. Será que
você pode trocar minha nota?
Num gesto silencioso ele deixou a folha sobre a mesa da
professora. Assistia a aula cabisbaixo, volta e meia seu olhar pairava sobre
aquele papel rasurado de tanto ter sido apagado e reescrito. Era lógico que ia
haver alguma alteração na nota, pois o conceito de aprendizagem que ele tinha de si mesmo o fez ir à busca de
melhorias. Mostrou que era capaz de mudar, de
promover sua neuroplasticidade, sendo que a aprendizagem que a situação lhe
proporcionou provocou mudanças: de atitude, de conhecimento, de reconhecimento
de si mesmo de metacognição, “pensar sobre o repensar”, de saber que aquele saber evidenciado num
teste não é o seu saber absoluto.
Neste simples gesto, quantas aprendizagens...quantas
mudanças...
A verdadeira aprendizagem é justamente essa: proporcionar ao
aluno ser agente e ao mesmo tempo sujeito de sua aprendizagem
A nota/conceito foi alterada(o) e entregue ao aluno com um
grandioso parabéns por sua atitude, por procurar demonstrar que tem capacidade
de melhorar sempre e ir à busca de conhecimento a partir de um resultado
obtido.
Alguns profissionais mais inflexíveis frente aos resultados
apresentados pelos alunos abordam que esta flexibilidade da educação é que faz
com que os alunos estudem menos, alguns usam em seu discurso “está tudo fácil,
o aluno não precisa mais se esforçar porque sabe que tem a “recuperação”, etc,
e tal. Mas já tenho anos de experiência, tanto como professora, tanto como
aluna e sempre fui apaixonada por meus mestres, então se hoje tenho a
perspicácia de perceber que o aluno é muito mais do que o resultado evidenciado
em determinado contexto é porque tive bons mestres, profissionais que serviram
de modelo pra minha atuação no contexto educacional.
Lembrei com carinho,
da minha professora, que há mais ou menos 30 e poucos anos atrás, entreguei a
prova de conjugação verbal e naquele exato instante olhei para ela e disse: -
Professora, minha prova está errada, conjuguei o verbo “querer” com “z” e agora
lembrei que é com “s”! A expressão dela,
franzindo a testa, pensando o que fazer reavivaram diante de todo o contexto
ocorrido com tal aluno, entretanto num
gesto inesperado ela devolveu-me a folha e solicitou que a refizesse novamente.
Exemplos como esse que guardamos no coração e que servem de modelo para nossa atuação como profissionais. O professor, mesmo que não queira, sempre foi
e sempre será “modelo de vida”. Para os que vivenciaram esta época, sabem que
não havia muitas regalias, era uma educação mais tradicional, pautada no acerto
e no erro, ou seja, ou você sabia ou tinha que esperar para a tal recuperação
lá no final do bimestre ou até do ano. A atitude que a professora
teve naquela situação, quando ainda nem pensava em atuar no cenário educacional,
deixaram marcas registradas, ensinando-me sobre o fazer pedagógico, respeito com o
educando e acima de tudo que a verdadeira educação promove reflexão sobre
nosso ato de aprender.









