domingo, 18 de janeiro de 2015

Empatia

Ana Lúcia Hennemann*

O menino recém havia completado 2 anos de idade. A festa de seu aniversário lhe rendeu alguns brinquedos interessantes. Um deles era um jogo de encaixe repleto de blocos coloridos, e eis que numa tarde qualquer montava-o no tapete da sala com a mãe sentada ao lado observando aquelas mãozinhas pouco habilidosas tentando encaixar as peças.
O filho estava crescendo rapidamente e devido a fatores como emprego, ritmo acelerado de vida, quase nem conseguia acompanhar as mudanças.
Vagando em seus pensamentos quase nem percebeu a interrupção da criança mostrando a montagem que havia realizado: - Tá bonito mamãe?
E ela num meigo sorriso, responde:
- Sim filho. Hummmmm estou até com ciúmes deste jogo, você nem dá mais bola para mim...
Neste instante pega o celular e começa a visualizar as mensagens recebidas.
 A criança silenciosamente levanta-se e dirige-se a outro local da casa. Segundos depois, volta e diz: - Tá mamãe!
E com os braços estendidos, e o sentido de dever cumprido,  entrega a bola para a mesma.

       Perceber nossos próprios sentimentos não é tarefa fácil, mas é fruto de uma construção que inicia na relação mãe/filho (pais/filhos, cuidadores/ crianças). A interação com os outros nos proporciona a autodescoberta, bem como a autoconsciência de nossos atos e sentimentos. No exemplo acima a mãe utilizou-se de uma metáfora para externar aquilo que sentia, entretanto a criança não conseguiu entender a metáfora utilizada, mas já traz dentro de si todos os neurônios que lhe possibilitem sentir a empatia.
      Empatia não se resume apenas a responder com sorrisos a quem nos sorri ou ficar comovido quando alguém chora. Ela envolve conhecimento de si e do outro, trata-se de entender o sentimento dos demais, colocar-se no lugar dos mesmos. Herculano-Houzel nos diz que empatia é a capacidade de "sofrer junto", ou seja, de sentir, ou ao menos intuir, o que o outro sente.
      Se uma criança de 2 anos percebe sua mãe chorando ela pode oferecer-lhe algum brinquedo ou até mesmo algum alimento que esteja comendo como forma de ver a mesma se sentir melhor, pois geralmente, são estes os atos que ela recebe do adulto quando a mesma está chorando.
      "Aos 3 anos, as crianças percebem que, se alguém consegue o que quer, fica feliz e, se não consegue, fica triste (Wellman e Woolley, 1990)."
       Porém, por volta dos 4 anos de idade ela já adquiriu mais vivencias em relação às suas emoções e as dos demais indivíduos a sua volta. Por exemplo, se alguém diz que sente dor em determinado local a criança já tenta confortar a pessoa, pois a dor do outro pode lhe parecer desconfortável.
      Todo ser humano nasce com neurônios-espelho, ou seja, neurônios que tem como função a capacidade de imitar gestos e atitudes dos demais seres humanos. Os neurônios-espelho (localizados no lobo frontal) conforme o neurocientista Ramachandran podem fornecer a base da empatia, do autoconhecimento, da autoconsciência. Alfred Adler, psicólogo austríaco, há décadas afirmou que a empatia deve ser estimulada em crianças pelos pais e demais cuidadores ou permanecerá enfraquecida.
       A maneira como os pais/cuidadores tratam a criança é o modo como ela vai aprendendo a ter empatia. Crianças que crescem em ambientes onde dizem o que querem ofendendo as pessoas ou apresentam atitudes de agressão física (um simples tapa que for) e a família se mantém omissa, afinal: - Meu filho tem personalidade! Ele é assim! - estão sendo ensinadas a serem insensíveis aos sentimentos alheios.  
.   O dever dos pais/cuidadores sempre é dialogar sobre as situações, fazer a criança entender que tudo há consequências. Não importa a idade da criança, o diferencial é os pais a ensinarem como lidar com as situações, pois dessa forma estão oportunizando o fortalecimento da empatia e automaticamente ensinado seus filhos lições de gestão emocional, instrumentalizando-os para uma melhor convivência em sociedade e quem sabe a conquista de melhores empregos, pois num mundo em que cada vez mais as pessoas estão conectadas em máquinas e menos em gente (Gardner), um simples sorriso poderá fazer toda a diferença.  

Referências Bibliográficas:
FIORE-CORREIA, Olívia. LAMPREIA, Carolina. SOLLERO-DE-CAMPOS, Flávia. As falhas na emergência da autoconsciência na criança autista. Disponível online em http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0103-56652010000100007&script=sci_arttext

HERCULANO-HOUZEL, Suzana. Vida em Sociedade. Disponível online em: http://www.cerebronosso.bio.br/vida-em-sociedade/
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* Especialista em Alfabetização/ Educação Inclusiva/ Neuropsicopedagogia.
   Pós-graduanda em Neuroaprendizagem/ Professora em cursos de pós-graduação nas disciplinas voltados às  Neurociências, Neuropsicopedagogia, Educação Inclusiva, Alfabetização.
   Email: ana.hennemann@outlook.com   

Um simples desafio




 A resposta do desafio é simples... O círculo azul vai logo após o círculo rosa e o marrom sobre o círculo azul claro. Na hora da contagem há 6 círculos em cada fileira...

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Alguém pode estar manipulando você...

Ana Lúcia Hennemann*
“Os truques de mágica funcionam porque os seres humanos têm um processo estruturado de atenção e consciência que pode ser invadido e alterado.”
 Macknik e Martinez-Conde

     Assim como a música, a pintura, a poesia, o teatro, também a magia é uma arte de encantar. Não importa a idade, o fato é que ela nos ilude e o fascínio disso encanta, principalmente quando o truque é feito com maestria. O mágico, sorridente e encantador gesticula dando a impressão de um simples movimento, mas não, sabiamente o gesto inocente foi utilizado para distrair e direcionar a atenção do público para aquilo que deseja enfatizar.
    Mágica tem muita semelhança com a neurociência cognitiva, ou seja, ambas estudam o comportamento humano – suas experiências, consciência e expectativas. Entretanto, na mágica há uma sequência de atos bem planejados, ensaiados milhares de vezes e intencionais. Durante uma única apresentação informações inverídicas são “implantadas” nos cérebros dos espectadores, porém a credibilidade naquilo que se vê e toda a carga emocional recebida no momento, faz com que detalhes minuciosos passem despercebidos.
   Os mágicos utilizam-se de um mecanismo chamado atenção seletiva. Por exemplo, quanto mais focamos nossa atenção para determinado estímulo, maior a probabilidade de desconsiderar o que ocorre a nossa volta. E a maioria dos truques faz com que o indivíduo foque sua atenção, e aí vem a perspicácia e agilidade do mágico, porque geralmente eles apresentam um truque inicial dando a entender que o mesmo não funcionou, e no que a pessoa relaxa, aí a verdadeira mágica acontece. Ou então, utilizam-se de estratégias que façam as pessoas rirem, e é difícil pensar criticamente quando se está rindo.

    Mágicos são manipuladores de atenção e não de olhares das pessoas, pois vemos a mágica acontecer, mas não percebemos todos os detalhes que estão ocorrendo junto com a mesma. Quanto mais um indivíduo procura atentar para alguma coisa mais ele a acentua e mais elimina as informações circundantes.
    Quando pensamos em tomada de decisões, acentuar ou eliminar informações fazem muita diferença, pois conforme os neurocientistas Macknik e Martinez-Conde (2011, p 96) “no dia a dia mesmo quando a pessoa se concentra em realizar um trabalho crucial, ela ainda precisa se lembrar de dar uma olhadela em volta de vez em quando para não correr o risco de deixar passar fatos importantes e oportunidades potenciais.”  Um exemplo disso é quando o indivíduo tem algo a resolver, mantém o foco naquilo, mas parece difícil encontrar a solução. No momento que “desligou”, relaxou, aí a resposta aparece.
   Um teste muito conhecido desenvolvido pelo psicólogo e pesquisador Daniel J. Simons é aquele onde jogadores estão driblando e passando entre si uma bola de basquete. A tarefa é contar durante 60 segundos o número de vezes que cada jogador faz um passe. Enquanto permanecemos concentrados e focando na bola e na quantidade de passes, alguém vestido de gorila caminha entre os jogadores, vira o rosto para os espectadores, bate no peito e vai embora. E muitos não conseguem perceber o gorila.
   Há também um outro fator interessante, quando vamos ao show de mágica, estamos cientes que se trata de um espetáculo, de que alguém durante um determinado período irá se utilizar de todos seus conhecimentos e habilidades para fazer o inacreditável acontecer...no entanto, no dia a dia, somos vulneráveis a muitas manipulações de atenção seletiva, e nem sempre o percebemos...

Fontes Bibliográficas:

GRAVENOR, Misha. Mágica a truques que iludem o cérebro. http://www2.uol.com.br/sciam/reportagens/magica_e_truques_que_iludem_o_cerebro.html
JOU, Gaziela. Atenção seletiva: Um estudo sobre cegueira por desatenção. http://www.psicologia.pt/artigos/textos/A0305.pdf
MACKNIK, Stephen. MARTINEZ-CONDE, Suzana. Truques da mente: o que a mágica revela sobre o nosso cérebro. Rio de Janeiro: Zahar, 2011.


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* Especialista em Alfabetização/ Educação Inclusiva/ Neuropsicopedagogia.
   Pós-graduanda em Neuroaprendizagem/ Professora em cursos de pós-graduação nas disciplinas voltados às  Neurociências, Neuropsicopedagogia, Educação Inclusiva, Alfabetização.
   Email: ana.hennemann@outlook.com   

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Cérebro de criança também necessita de estímulos nas férias...

Ana Lúcia Hennemann*

     No final do ano vem aquela fase do cansaço onde os alunos pedem férias e os professores também precisam deste merecido descanso. Sair com amigos, viajar, passar horas jogando videogame, navegando na internet, assistir filmes, brincando a vontade ou quem sabe simples passeios são atividades que revigoram nosso organismo e nos fazem enfrentar um novo ano letivo com muita disposição.
   Porém, crianças que tiveram dificuldades acadêmicas no ano anterior, ficar totalmente longe de atividades que estimulem o raciocínio lógico, a leitura ou a escrita, faz com que alguns possam esquecer aprendizagens importantes. Por exemplo: uma criança que no final do ano adquiriu a habilidade de leitura, mas durante as férias não exercitou a mesma. Certamente, ao retornar para escola será necessário estimular todas estas habilidades novamente e faz com que a criança apresente dificuldades em relação aos demais colegas.
  De acordo com Guerra (2011, p.134) “alguém aprende quando adquire competência para resolver problemas e realizar tarefas, utilizando-se de atitudes, habilidades e conhecimentos que foram adquiridos ao longo de um processo de ensino-aprendizagem.” Nesse sentido, se o indivíduo ainda não demonstrou facilidade para demonstrar determinados aprendizados é porque ele ainda não o tem consolidado, se faz necessário continuar investindo em atividades que auxiliem naquela aprendizagem.
  Cada escola no início do ano letivo destina um período para relembrar o que aprenderam no ano anterior, lógico que este período é destinado a auxiliar todas as crianças, mas quando o indivíduo também é estimulado de formas prazerosas nas férias, estará fortificando as conexões das aprendizagens anteriores. É visível o desempenho daqueles indivíduos que receberam estímulos durante este período, pois apresentam mais facilidade para a aprendizagem.
  Por isso, sugere-se aos pais e ou familiares que neste período, além de atividades voltadas ao lazer e ao bem estar, também proporcionem pequenos períodos de simples “tarefas” ou brincadeiras que auxiliem na aprendizagem.
   Por exemplo, para estimular a  leitura/escrita:
- Peça auxilio para fazer a lista do supermercado;
- Ler o rótulo de algum produto;
-  Leitura de  livros ou quem sabe 1 capítulo do mesmo.
- Que tal registrar as atividades realizadas no dia, talvez montar um arquivo no computador destinado a estas anotações diárias ou então ter um caderno/agenda destinado para isso;
- Revistas de Caça Palavras são excelentes alternativas...



Para estimular a matemática e de forma bem divertida há atividades e jogos tais como:
-  Can-Can,  Ludo,  Sudoku, entre outros

 


    Para estimular a socialização, criatividade...
- Que tal ir ao teatro? Ou fazer fantoches e brincar em casa? Bonecos de sombra são atividades diferenciadas e podem estimular e muito a criança. Projeção de luz, cores diferenciadas...





   Para crianças que gostam de navegar na internet, há uma grande variedade de sites.  Nestes abaixo há excelentes atividades...







- Sites Educativos - http://www.siteseducativos.com.br/



Fonte Bibliográfica:
COSENZA, Ramon. GUERRA, Leonor. Neurociência e Educação – Porto Alegre: Artmed, 2011.


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* Especialista em Alfabetização/ Educação Inclusiva/ Neuropsicopedagogia.
   Pós-graduanda em Neuroaprendizagem/ Professora em cursos de pós-graduação nas disciplinas voltados às  Neurociências, Neuropsicopedagogia, Educação Inclusiva, Alfabetização.
   Email: ana.hennemann@outlook.com   

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Redação do Enem 2014 – Um convite para repensar as estratégias de ensino aprendizagem



                                                                         Ana Lúcia Hennemann*
         
 Conforme balanço do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) divulgado pelo Ministério da Educação, 6.193.565 candidatos prestaram exame, porém 529.374 participantes obtiveram nota zero na redação da prova, ou seja, 8,5% dos candidatos. Segundo informações do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira) , 250 estudantes obtiveram desempenho significativo, alcançando a nota 1000, 35 mil obtiveram notas dentro da média., porém, 248.471 redações foram anuladas, pois: - fugiam ao tema proposto (217,3 mil); copiaram o texto motivador (13 mil); texto insuficiente, com menos de sete linhas (7,8 mil); não atendimento ao tipo textual proposto, inserindo partes desconectadas ao mesmo (3,3 mil), e textos que “ferem” os direitos humanos.
      Para alguns especialistas, a temática da redação “Publicidade infantil em questão no Brasil” é um dos fatores que prejudicaram os alunos, pois no entender dos mesmos, o enfoque é bem desconhecido para a maioria dos estudantes.
     Paz_ciência como diz a palestrante Inês Cozzo, mencionar que publicidade infantil é enfoque desconhecido para os estudantes é o mesmo que dizer que eles não vivem num mundo globalizado e conectado, ou que não tem acesso aos veículos de comunicação e extensa programação das quais a publicidade infantil está presente.
   Os 7,8 mil estudantes que não conseguiram escrever mais do que sete linhas na redação me deixaram com um sentimento de que ainda há muito por fazer, nosso empenho é muito pouco, pois eles não receberam somente um título de algum conteúdo a ser abordado, receberam um título e 3 propostas motivadoras para desenvolver um texto argumentativo-dissertativo, ou seja, os alunos fazem escolhas, mas não conseguem   justificar o porquê optaram pelas mesmas.
Redação Enem 2014

    Paralelo a isso, percebe-se o aumento do analfabetismo funcional, ou seja, o indivíduo sabe ler, mas não consegue interpretar aquilo que está lendo. E nesta perspectiva percebe-se claramente que o problema não é somente no ensino médio, nas provas do Enem. O “buraco” é mais embaixo, precisamos melhor a qualidade de ensino nas séries iniciais, dedicar mais tempo à leitura, mais tempo à escrita.
       Conforme Alexandre Garcia, repórter e comentarista no Programa Bom Dia Brasil: “Para tirar zero em redação não é algo que se consiga de um ano para o outro, isso é resultado de muitos anos de falta de leitura e falta de curiosidade que aprimoram a ferramenta de comunicação que é a língua e o conteúdo dela, que é o conhecimento e sem conteúdo é o vazio. Com o vazio não se faz um cidadão, nem um país e muito menos uma redação.”
     O momento é de colocar o dedo na consciência e procurar alternativas viáveis que possam ser realizadas durante o período escolar.  Quem sabe não seria a hora de voltar as famosas fichas de leitura? Criticada por muitos, mas eficientes, pois vem de acordo com a metacognição, o pensar sobre o pensar, fazer uma análise daquilo que foi dito/lido e reelaborar aquela informação.
Pesquisas em neurociência educacional mostram com evidencias que quanto mais desempenhamos determinada função, melhores vamos nos tornando na mesma, ou seja, se o aluno quer escrever bem, ele precisa ler e escrever com frequência. Se a leitura dele for pobre a escrita também será, não existem fórmulas milagrosas, apenas empenho e dedicação.
       Os resultados da redação do Enem 2014, certamente serão um convite para todos que trabalham no contexto educacional repensar suas práticas, investir em melhorias, traçar metas mais audaciosas para a educação, pois diante a realidade que 15,2% das crianças brasileiras chegam aos oito anos sem estar alfabetizadas, mostra que a qualidade das redações não é resultado de um processo iniciado no Ensino Médio, mas sim de todo um sistema educacional que precisa ser reestruturado.

Fontes Bibliográficas:

HENNEMANN, Ana Lúcia. Literatura Infantil: Auxílio no Processo de Alfabetização e Letramento.  http://pt.slideshare.net/analuciah/literatura-infantil-auxilio-no-processo-de-alfabetizao-e-letramento-13089364
MEC. Ministro planeja exame como forma de avaliar ensino médio. http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=21027
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* Especialista em Alfabetização/ Educação Inclusiva/ Neuropsicopedagogia.
   Pós-graduanda em Neuroaprendizagem/ Professora em cursos de pós-graduação nas disciplinas voltados às  Neurociências, Neuropsicopedagogia, Educação Inclusiva, Alfabetização.
   Email: ana.hennemann@outlook.com