Ana Lúcia Hennemann*
O sinal anunciava o início
da aula, as crianças já se encontravam na fila. Alguns pais acompanhavam
apreensivos a entrada das crianças à sala de aula, observavam o menino num
estado de euforia pulando sobre os ombros dos colegas, quase os derrubando. Apresentava
uma fala ligeira e cheia de gestos, entretanto não tinha noção espacial de seu
corpo e não percebia quando a extensão de seu braço atingia o corpo dos demais.
Na sala de aula,
mostrava-se inquieto, o espaço da mesma era pequeno demais para ele, não
conseguia organizar-se, o lápis com frequência caia no chão, o caderno
incompleto cheio de dobras nas pontas, a borracha num instante se transformava num
carrinho.
Na mochila, além de
todos os pertences escolares também estavam vários brinquedos, que constantemente
insistia em pegá-los durante a execução de tarefas escolares.
O conteúdo da aula era
deixado de lado por qualquer motivo.
Cadeira, pra que serve
mesmo? aquele corpinho inquieto mal conseguia permanecer 15 minutos sentado.
Porém o problema é que sua inquietação tirava a concentração dos demais...hora
de chamar a família...
Na fala entristecida o
histórico de pais que já conheciam todo o repertório do diálogo proposto, já
não era a primeira escola pela qual passavam, a inquietação do filho, a falta
de atenção nas atividades, as brincadeiras constantes, a dificuldade de cumprir
regras, a desatenção...
Em casa também vivenciavam as mesmas situações, mas mencionaram que não entendiam, pois a criança era tão
inteligente e conseguia passar muito tempo concentrado no computador...
Existem muitos mitos
em torno do Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), mas este
é distúrbio neurobiológico crônico que afeta de 3% a 5% das crianças em idade
escolar e sua prevalência é maior entre os meninos. Esses sinais devem
obrigatoriamente manifestar-se na infância, mas podem perdurar por toda a vida,
se não forem devidamente reconhecidos e tratados. Os sintomas incluem
dificuldade em se concentrar e prestar atenção além da dificuldade em controlar
o comportamento.
Segundo Leonardi, Rubano e Assis (2010, p.114), estudos de neuroimagem e de neurobiologia
mostraram que crianças com TDAH possuem volumes cerebrais quase 3% menores que
o restante da população e assimetrias no córtex pré-frontal, estriado e cerebelo,
além de alterações no funcionamento de alguns neurotransmissores, em especial
dopamina e noradrenalina.
Nesse sentido, o TDAH não
acontece devido a fatores culturais ou conflitos psicológicos, mas por
apresentar alterações na região frontal do cérebro, responsável pela inibição
do comportamento e do controle da atenção.
De acordo com o Manual de
Classificação das Doenças Mentais – DSM-V, o TDAH é considerado um Transtorno
do Neurodesenvolvimento apresentando as seguintes características:
Desatenção: falta de atenção para detalhes, cometem erros por
omissão, as tarefas são realizadas sem o devido cuidado e meticulosidade,
dificuldade para manter a atenção, dificuldade para persistir e terminar as
tarefas, parece estar com a cabeça “em outro lugar”.
Hiperatividade: inquietação, não consegue permanecer quieto ou
sentado por muito tempo e quando deveria; apresenta dificuldade em realizar
tarefas de lazer em silêncio; demonstra estar “a todo vapor”.
Impulsividade: impaciência, não espera sua vez, responde antes da
pergunta ser finalizada, interrompe conversas alheias.
Os critérios para o diagnóstico de Transtorno
de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) são
Seis (ou mais) dos seguintes sintomas persistem por pelo menos seis meses
em um grau que é inconsistente com o nível do desenvolvimento e têm impacto
negativo diretamente nas atividades sociais e acadêmicas/profissionais. Para
adolescentes mais velhos e adultos (17 anos ou mais), pelo menos cinco
sintomas são necessários.
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A
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1)Desatenção: (Seis (ou mais) dos seguintes sintomas de desatenção (duração mínima de 6 meses)
a) Frequentemente não presta atenção em detalhes ou comete erros por
descuido em tarefas escolares, no trabalho ou durante outras atividades (p.
ex, negligencia ou deixa passar detalhes, o trabalho é impreciso).
b) Frequentemente tem dificuldade de manter a atenção em tarefas ou
atividades lúdicas (p. ex, dificuldade de manter o foco durante aulas,
conversas ou leituras prolongadas).
c) Frequentemente parece não escutar quando alguém lhe dirige a
palavra diretamente (p. ex, parece estar com a cabeça longe, mesmo na
ausência de qualquer distração óbvia).
d) Frequentemente não segue instruções até o fim e não consegue e não
consegue terminar trabalhos escolares, tarefas ou deveres no local de
trabalho (p. ex, começa as tarefas, mas rapidamente perde o foco e facilmente
perde o rumo).
e) Frequentemente tem dificuldade para organizar tarefas e atividades
(p. ex, dificuldade em gerenciar tarefas sequenciais; dificuldade em manter
materiais e objetos pessoais em ordem; trabalho desorganizado e desleixado;
mau gerenciamento do tempo; dificuldade em cumprir prazos).
f ) Frequentemente evita, não gosta ou reluta em se envolver em
tarefas que exijam esforço mental prolongado (p. ex, trabalhos escolares ou
lições de casa; para adolescentes mais velhos e adultos, preparo de
relatórios, preenchimento de formulários, revisão de trabalhos longos).
g) Frequentemente perde coisas necessárias para tarefas ou atividades
(p. ex, materiais escolares, lápis, livros, instrumentos, carteiras, chaves,
documentos, óculos, celular).
2) Hiperatividade e Impulsividade:
Seis (ou mais) dos seguintes sintomas de hiperatividade (duração mínima de 6 meses)
a) Frequentemente remexe ou batuca as mãos ou os pés ou se contorce
na cadeira;
b) Frequentemente levanta da cadeira em situações em que se espera
que permaneça sentado (p. ex, sai do seu lugar em sala de aula, no escritório
ou em outro lugar de trabalho ou em outras situações que exijam que se
permaneça em um mesmo lugar).
c) Frequentemente corre ou
sobe nas coisas em situações em que isso é inapropriado. Nota: Em
adolescentes ou adultos, pode se limitar a sensações de inquietude).
d) Com frequência é incapaz de
brincar ou se envolver em atividades de lazer calmamente
e) Com frequência “não para”, agindo como se estivesse “com o motor ligado”
(p. ex, não consegue ou se sente desconfortável em ficar parado por muito
tempo, como em restaurantes, reuniões, outros podem ver o indivíduo como
inquieto ou difícil de acompanhar.
Impulsividade (duração mínima de 6 meses)
f) Frequentemente fala demais.
g) Frequentemente deixa escapar uma resposta antes que a pergunta
tenha sido concluída (p. ex, termina frases dos outros, não consegue aguardar
a vez de falar).
h) Frequentemente tem dificuldade para esperar a sua vez (p.
ex, aguardar em uma fila)
i) Frequentemente interrompe ou se intromete (p. ex, mete-se nas
conversas, jogos ou atividades; pode começar a usar as coisas de outras
pessoas sem pedir ou receber permissão; para adolescentes ou adultos, pode
intrometer-se em ou assumir o controle sobre o que os outros estão fazendo.
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B
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Vários sintomas de desatenção ou hiperatividade-impulsividade estavam
presentes antes dos 12 anos de idade
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C
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Vários sintomas de desatenção ou hiperatividade-impulsividade estão
presentes em dois ou mais ambientes (p. ex, em casa, na escola, no trabalho;
com amigos ou parentes; em outras atividades).
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D
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Há evidências claras de que os sintomas interferem no funcionamento
social, acadêmico ou profissional ou de que reduzem a sua qualidade.
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E
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Os sintomas não ocorrem durante o curso de esquizofrenia ou outro
transtorno psicótico e não são mais bem explicados por outro transtorno
mental (p. ex, transtorno do humor, transtorno de ansiedade, transtorno
dissociativo, transtorno da personalidade, intoxicação ou abuso de
substâncias).
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TEIXEIRA (2010, p 65 - 67) elenca
algumas atitudes que o indivíduo com TDAH pode manifestar na escola:
® Deixa de prestar atenção a detalhes ou comete erros por
descuido em atividades.
® Tem dificuldade para manter a atenção em tarefas ou
atividades lúdicas.
® Parece não escutar quando lhe dirigem a palavra.
® Não segue instruções e não termina seus deveres
escolares.
® Tem dificuldade para organizar tarefas e atividades.
® Evita, antipatiza ou reluta em envolver-se em
atividades que exijam esforço mental constante (como tarefas escolares ou
deveres de casa).
® Perde coisas necessárias para tarefas ou atividades
(por exemplo: brinquedos, lápis, livros, etc.).
® É facilmente distraído por estímulos alheios à tarefa.
® Apresenta esquecimento em atividades diárias.
® Agita as mãos ou pés, ou se remexe na cadeira.
® Abandona sua cadeira em sala de aula ou em outras
situações nas quais se espera que permaneça sentado.
® Corre ou escala em demasia, em situações nas quais
fazer isso é inapropriado (em adolescentes e adultos pode estar limitado a
sensações subjetivas de inquietação).
® Tem dificuldade para brincar ou se envolver
silenciosamente em atividades de lazer.
® Fica a “mil” ou muitas vezes age como se estivesse “a
todo vapor”.
® Fala muito.
® Dá respostas precipitadas antes de as perguntas terem
sido completadas.
® Tem dificuldade para aguardar a vez.
® Interrompe ou se mete em assuntos dos outros (por
exemplo: intromete-se em conversas ou brincadeiras).
Visando o melhor desempenho
destes alunos em sala de aula, sugere-se que os professores:
ï Organizem as mesas em
círculos, ou em forma de U, ao invés de fileiras: facilita o contato e
particularmente o “olho no olho” com os demais colegas da classe;
ï Ensinem técnicas de
organização e de estudo;
ï Estimulem e reforcem positivamente atitudes assertivas através de elogios;
ï Proporcionem atividades
que contemplem as inteligências múltiplas.
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| Fonte: G1 |
Referência
Bibliográfica:
COUTINHO, Thales. Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). Youtube Canal TVCChanelNews
LEONARDI, Jan.
RUBANO, Denize. ASSIS, Fátima. Subsídios da Análise do Comportamento para Avaliação
de Diagnóstico e Tratamento do Transtorno do déficit de Atenção e Hiperatividade
(TDAH). In.: Medicalização de crianças e
adolescentes: conflitos silenciados pela redução de questões sociais a
doença de indivíduos. CONSELHO REGIONAL DE PSICOLOGIA DE SÃO PAULO. São Paulo:
Casa do Psicólogo, 2010.
TEIXEIRA, Gustavo. Manual dos Transtornos Escolares:
entendendo os problemas de crianças e adolescentes na escola. Rio de Janeiro:
Best Seller, 2013.
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* Especialista em Alfabetização/ Educação Inclusiva/
Neuropsicopedagogia.
Pós-graduanda em Neuroaprendizagem/ Professora em
cursos de pós-graduação nas disciplinas voltados às Neurociências, Neuropsicopedagogia,
Educação Inclusiva, Alfabetização.