Ana
Lúcia Hennemann[1]
Da mesma forma que sem fome
não apreendemos a comer e sem sede não aprendemos a beber água, sem motivação
não conseguimos aprender.
- Iván Izquierdo.
Vivemos tempos
em que tudo parece muito difícil: violência, situação política, econômica,
saúde pública, enfim, cada um através de seu prisma consegue enxergar aquilo
que lhe aflige... Mas, também podemos afirmar que nosso conforto nos cega!!! Talvez
tenhamos comodidades que em séculos anteriores nossos antepassados não as
tiveram.
Que tal
imitarmos o personagem de Christopher Lloyd, o
cientista Doc Brown, no filme “De volta
para o futuro”, mas voltar no tempo até
aportar exatamente no local onde estão chegando os primeiros imigrantes em
terras brasileiras? Na mala, apenas sonhos, esperança de um futuro melhor, sementes
e ferramentas agrícolas para que pudessem plantar seus alimentos, construir
suas casas. Por todos os lados há somente mata, mas é esta a realidade, é
através dela que terão que cuidar da família, zelar pela educação de filhos,
caçar o alimento, buscar água para o próprio consumo...imaginem o tamanho da
motivação que estes indivíduos precisavam ter?
Muitos devem
pensar: - mas isso é uma questão de sobrevivência!!! Lógico que é!! E é bem
nesse ponto que quero tocar: - MOTIVAÇÃO é questão de sobrevivência! É ela que
nos faz querer algo mais, que nos impulsiona para nos desvencilhar de todos e
quaisquer empecilhos para que possamos alcançar nossos objetivos.
Motivação
provém da palavra em latim “MOVERE”, que significa mover para realizar
determinada ação. Ou seja, é o impulso que nos move para agir. Percebe-se
muitas escritas em neuroeducação enfatizando o papel das emoções, que trata-se
de “um estado que a pessoa fica diante determinada situação/sentimento”
(Mattos, 2010), pode ser algo passageiro, mas elas são de extrema importância,
pois as emoções em ação tornam-se poderosos fatores de motivação, liberando
neurotransmissores responsáveis pela nossa sensação de prazer, de bem-estar,
acionando assim mecanismos que sustentam
a motivação, que “é uma condição de estar preparado e com vontade de fazer
alguma coisa” (Mattos, 2010).
A motivação traz
o entendimento do porquê o aluno precisa estudar, que diferença fará na sua
vida aprender determinado conteúdo, além de dar suporte para que muitas vezes
consiga dizer não para algum compromisso com amigos e mesmo assim tenha prazer
em estudar.
Os mecanismos
da motivação quando ativados no cérebro liberam dopamina, que é uma substância
neuromoduladora capaz de modificar as atividades elétricas dos neurônios. Quanto
maior a quantidade de dopamina que recebemos, maior é a sensação de bem-estar
que associamos aquele comportamento, procurando repetir este estímulo como
forma de ativar nosso sistema de recompensa.
Se o aluno recebe um elogio do professor por
determinada situação, com certeza irá querer repetir a ação para receber novos
elogios. Se disser para tal pessoa que o sorriso dela é encantador, certamente
ela vai sorrir com muito mais frequência. Como também se comemos algo que nos
deu prazer, visitamos algum local maravilhoso ou sentimos alegria na companhia
de alguma pessoa, vamos querer repetir a dose...
Dentro da
questão motivacional entra em cena também os famosos neurônios-espelho, que são
células especializadas que tentam reproduzir automaticamente ações alheias e
nos permitem tanto imitá-las quanto interpretá-las e nesse sentido Fraiman
(2014) nos diz que “a postura do educador influencia na motivação de seus
alunos e em seu impacto na comunidade”. Portanto, para motivar alunos,
precisamos ser exemplo de motivação. Eles precisam sentir que é possível sim,
fazer a diferença, que a educação é âncora motivacional para a vida, que nosso
cérebro ‘aprende’ não só novos conteúdos na escola, mas também a alterar
processos-chave para a vida.
Talvez alguns educadores
esqueceram o que um dia os motivou a chegar a tal lugar, o encanto que teve o
primeiro emprego, ou ser chamado no edital do concurso, seu primeiro dia na
escola, sua primeira reunião, o primeiro olhar de cada aluno... sim, os alunos
já eram agitados, desmotivados, sempre o foram! Mas, a expectativa do fazer
docente, fazia com que isso servisse de impulso para criar novas técnicas,
preparar aulas diferenciadas, propor atividades diversificadas.... Em muitos
momentos do fazer docente podemos passar por situações de desmotivação, mas se
faz necessário pensar: - e se fosse meu primeiro dia, se fosse meu primeiro
ano? Como agiria?
Mussak (2013,
p.119) conta um episódio que assistira de Madame Bovary: “Emma, queixa-se do
esposo, e me chamou particularmente a atenção um trecho em que ela diz que seu
marido é muito bom, atencioso, mas não é ambicioso. Ela, ao contrário, é
ambiciosa, ela quer mais da vida. Naquele tempo, a mulher não devia ser
ambiciosa, quem tinha de ser ambicioso era o marido, mas seu nível de
expectativa é mais elevado do que o dele. Em certo momento, ela diz algo assim:
quando olho para meu futuro, vejo um corredor escuro com uma porta fechada no
seu extremo”. E isso a desesperava. Ela não conseguia manter a motivação no
casamento porque, ao olhar para adiante, via apenas um trajeto sombrio e sem
saída”.
E quantas vezes
podemos passar esta mesma sensação a nossos alunos, de que a vida é um trajeto
sombrio e sem saída, é preciso ter vistas para um futuro mais audacioso ter a
certeza do que e porque estamos na estrada da educação.
Nosso corpo
possui drogas internas, a dopamina e a ocitocina, responsáveis pelo prazer e
pela colaboração, que são estimuladas com a palavra e o reconhecimento. (Costa,
2014). Quando falamos em motivação como ferramenta de aprendizagem é justamente
o encantar com a palavra e o reconhecimento, durante séculos estes recursos nunca
caíram de moda: “mostrar empatia pelo aluno, ser exemplo de motivação,
trabalhar conteúdos através de histórias, mudar a tonalidade da voz, ...”
São pequenos
fatores que fazem a diferença, se não os fizesse não existiria nenhuma Malala
Yousafzai, em pleno século XXI, recebendo prêmio Nobel (2014) por reivindicar o
direito ao estudo, o direito de ter a presença de um professor, o direito de
fazer a diferença no mundo.
Se em tempos
anteriores, alguns transformaram a história, trazendo consigo apenas algumas
sementes e ferramentas agrícolas, que nós sejamos mais audaciosos, pois com
todos os recursos que dispomos, precisamos ser referência em motivação, de tal
forma que lá dentro do cérebro de nossos alunos, seus neurônios-espelho, clamem
por: - eu quero ser assim, eu quero aprender isso... E dessa forma podemos
passar a sensação de que a vida é um trajeto claro e com muitas oportunidades,
desde que tenhamos motivação para alcançar nossos objetivos.
Referências:
COSTA,
J. Congregarh-2015
JESEN,
Eric. Enriqueça o cérebro: como
maximizar o potencial de aprendizagem de todos os alunos. Porto Alegre: Artmed,
2011.
MATTOS,
Geraldo. Dicionário Júnior da Língua
Portuguesa. São Paulo: FTD, 2010.
MARINS,
L. MUSSAK, E. Motivação: Do querer
ao fazer. Campinas: 7 mares, 2013.
[1]
Especialista em Alfabetização. Neuropsicopedagogia Clínica. Neuropsicopedagogia
e Educação Inclusiva. Neuroaprendizagem. Pós-Graduanda em MBA em Liderança e
Coaching para Gestão de Pessoas.





