sexta-feira, 6 de novembro de 2015

As crianças estão mudando o foco...


Ana Lúcia Hennemann[1]
“As crianças de hoje estão crescendo numa nova realidade, na qual estão conectadas mais a máquinas e menos a pessoas de uma maneira que jamais aconteceu antes na história da humanidade [...] Menos horas passadas com gente e mais horas olhando fixamente para uma tela digitalizada são o prenúncio de déficits”
Daniel Goleman

Nesta última década há a predominância de uma nova geração: “A falta de foco e desatenção”. E não estou falando da geração Y, a qual as repórteres Matsu e Schabib se referiram como as que nasceram com “a faca, o queijo e o smartphone na mão”, estou falando da geração “Z”, nascida a partir do ano 2000, que além dos atributos da faca, do queijo e do smartphone, está sendo apontada também, como a geração selfie, ou seja eu, meu mundo e nada mais.  Guilherme Arantes, há muito tempo já cantava isso...”Meu mundo e nada mais”, não no sentido dessa exposição do ego, mas no sentido das pessoas se perceberem tão feridas que não enxergam expectativas de mudanças.
O grande problema da geração selfie é que seu foco está todo voltado apenas para um mundo irreal, virtual, artificial...tempos líquidos. 
 Falas de adolescentes já se tornaram jargões de crianças: “Professora não deu tempo”. Como assim, criança não tem tempo? Também tenho acesso a internet, e aquele pequeno cidadão que aos 8 anos de idade enfatiza que não teve tempo para fazer a tarefa de casa, me conta fatos relacionados ao Facebook, ao YouTube e os avanços de nível que teve em determinado jogo virtual.
Poderíamos dizer que esta geração está sem foco, mas na verdade, focada ela está, porém a questão é: em quê? E não pensem que sou daquelas pessoas anti-era-digital, nada disso, mais plugada que eu, impossível! O problema é a qualidade do que escolhemos para nos manter atentos, pois foco é uma questão de nos afastar daquilo que não nos é importante! É concentrar nossa atenção em determinado aspecto, pois em latim atenção significa attendere, ou seja, entrar em contato, nos conectar com o mundo, moldando e definindo a nossa experiência.
Goleman (2013) relaciona a nossa capacidade de atenção, como nível de competência com que realizamos determinada tarefa. Entretanto, apesar da atenção ser um fator importante para a forma como levamos a vida, ela é um recurso mental que passa despercebido. Quando deixamos de desenvolver atividades que promovam o nosso foco, nossa atenção, nos tornamos mais dispersos. Quando nos dedicamos a fortalecer nossa atenção em aspectos que são realmente relevantes para o indivíduo humano, estamos nos proporcionando organização, economia de tempo e qualidade de vida.
Segundo Goleman existem três aspectos que envolvem o foco: - interno, no outro e externo.
® Foco interno – nos põe em sintonia com nossas intuições, nossos valores e nossas melhores decisões, esse tipo de foco nos faz refletir sobre nossas ações e nos proporciona melhor estrutura cognitiva.
Lembram daquele antigo hábito de escrever os famosos diários, pois eles eram importantíssimos, através deles colocávamos na escrita aquilo que vinha em nossos pensamentos. Isso é uma forma de se reestruturar, de analisar o que está acontecendo consigo.
Outra forma de perceber nossa capacidade de foco é redação. Qual seria a qualidade de sua redação? Em quanto tempo você conseguiria externalizar num texto o que permeia em seus pensamentos?
® Foco no outro – facilita nossas ligações com as pessoas de nossas relações. É a questão da empatia, de perceber o outro. Mas será que estamos ensinando nossas crianças a ter empatia?
Esta semana fiz uma atividade onde os alunos deveriam desenhar e apresentar aos colegas fatos relacionados ao final de semana: “o que me deixou feliz”, “o que me deixou triste”. Atividade feita, apresentação iniciada, mas a surpresa: a medida em que as crianças falavam, percebi que fatos que os deixaram tristes e felizes estavam somente voltados à questão de ter ou não adquirido pontuação em seus jogos virtuais. Isso me surpreendeu, pois noções de felicidade e tristeza são percebidas não mais pela nossa relação com o outro ser humano e sim pela interação com um jogo! E no exercício de refletir sobre o que falaram e analisar sobre a precariedade do afeto humano, eis que um pede a palavra e diz: - ‘Professora, mas a gente joga em família, meu pai e minha mãe usam seus notes e eu o Tablet, todo mundo fica junto jogando.” E desse modo a nova sociedade está sendo constituída...
® Foco externo -  nos ajudam a navegar pelo mundo que nos rodeia. Nos faz entender qual nossa contribuição para o mundo. Entretanto, se nas famílias as interações pessoais se dão via virtual, obviamente nossa interação com o mundo também será dessa forma. “Cada macaco no seu galho”. Aliás, este é o título de uma das crônicas de Daniela Malagoli retratando esta solidão coletiva à qual estamos vivenciando.
Se faz necessário entender que o mundo tecnológico é sim importante para a aprendizagem, ele também nos ensina a manter o foco. Contudo, o que é preocupante é o tempo com que as crianças estão plugadas e deixando de exercer outras atividades. É o não ter tempo para as atividades escolares, e futuramente é o não ter tempo para as atividades voltados ao trabalho, à família, à sociedade e principalmente o não ter tempo para cuidar de si.
Foco se relaciona com amor, com paixão, com desempenhar aquilo que estamos fazendo com entrega. Pessoas que amam o que fazem aumentam a capacidade de focar e aprendem com mais facilidade. Segundo Goleman (2012, p 20): “Quando nossa mente divaga, nosso cérebro ativa uma porção de circuitos neurais que murmuram sobre coisas que não tem nada a ver com o que estamos tentando aprender.”
As crianças estão sim tendo atenção seletiva, que é a capacidade neural de focar em determinado contexto e esquecer tudo aquilo que ocorre no ambiente. Porém, este tipo de atenção seletiva, “focada na máquina”, “no selfie”, está criando pessoas que já não olham mais nos olhos dos outros, que são incapazes de perceber os sentimentos e futuramente indivíduos desprovidos de afeto.
Ter foco, começa antes de tudo com os cuidados que temos para conosco, não esse olhar de selfie, de exposição, mas sim um olhar mais profundo, um olhar de identidade, de entender: quem somos, e qual nossa importância para o mundo. Que saibamos dar às crianças este entendimento e fazê-las sair deste estado de “Meu mundo e nada mais”.
Se faz necessário ensiná-las a ampliar a capacidade de focar, investir em outras áreas: sono, alimentação, ensino, artes, interação com outros, esportes...pois quando elas realmente tiverem adquirido a noção de cuidar de si, serão capazes de olhar nos olhos de outras pessoas e fazer o convite para cuidar do mundo.

Bibliografia:
GOLEMAN, Daniel. Foco: A atenção fundamental para o sucesso. Rio de Janeiro: Objetiva, 2013.
MATSU, Carla. SCHABIB, Luana. Geração Y: Quem são esses caras. Disponível online em: http://migre.me/mAzhM



[1]  Especialista em Alfabetização, Neuropsicopedagogia e Educação Inclusiva, Neuropsicopedagogia Clínica e Pós-graduanda em Neuroaprendizagem. - whatsApp - 51 9248-4325

Como fazer a citação deste artigo:

HENNEMANN, Ana L. As crianças estão mudando o foco. Novo Hamburgo, 06 nov/ 2015. Disponível online em: http://neuropsicopedagogianasaladeaula.blogspot.com.br/2015/11/as-criancas-estao-mudando-o-foco.html



terça-feira, 3 de novembro de 2015

Considerações sobre o Livro Neuropsicopedagogia Clínica – Introdução, Conceitos, Teoria e Prática

        Ana Lúcia Hennemann*
Autor:
Número de Páginas:146

Ano: 2015
Editora: Juruá

   Com menos de 10 anos no Brasil, na modalidade de especialização Lato Sensu, a Neuropsicopedagogia tem apresentado um elevado crescimento, sendo que neste ano de 2015, destacou-se com alguns marcos importantes:
- I Seminário de Neuropsicopedagogia, ocorrido na cidade de Jaraguá do Sul, em Santa Catarina; - o presidente da Sociedade Brasileira de Neuropsicopedagogia, prof Drº Luiz Antonio Correa, apresentou no Senado Federal a Conferência: "Uma Visão Neuropsicopedagógica do Desenvolvimento Humano" (links: http://migre.me/s0ImW e http://migre.me/s0IoD ) e o  lançamento do livro: Neuropsicopedagogia Clínica – Introdução, Conceitos, Teoria e Prática, publicado pela editora Juruá.
    Além do Código de Ética - Técnico Profissional da Neuropsicopedagogia, o livro Neuropsicopedagogia Clínica atualmente é um dos principais documentos da profissão. E é sobre ele que venho a descrever uma breve resenha elencando aspectos importantes ressaltados na obra.
         A autora, profª Drª Rita Margarida Toler Russo, traz contribuições que pontuam muitas inquietações que haviam dentro deste contexto. Numa leitura muito prazerosa, o livro está distribuído em 5 capítulos, contemplando as diversas necessidades que o Neuropsicopedagogo poderá ter no decorrer de sua atividade profissional tanto no conhecimento teórico, quanto no conhecimento prático.
      No primeiro capítulo, intitulado A Neuropsicopedagogia Clínica há a definição do conceito da Neuropsicopedagogia, definida pelo SBNPp (apud RUSSO, 2015) como: “uma ciência transdisciplinar, fundamentada nos conhecimentos da Neurociência aplicada à educação, com interfaces da Psicologia e Pedagogia que tem como objeto formal de estudo a relação entre cérebro e a aprendizagem humana numa perspectiva de reintegração pessoal, social e escolar.”
      Neste capítulo um dos pontos que merecem destaque é quando Russo (2015, p.17) menciona: “A Neuropsicopedagogia Clínica, embora estude o funcionamento do cérebro e o comportamento humano, tem os alicerces de sua prática nas teorias de aprendizagem e nas estratégias para o ensino aprendizagem.” Em outras palavras: não adianta apenas entender o funcionamento do sistema nervoso, se faz necessário entender as teorias que fundamentam a aprendizagem e que estratégias poderiam ser mais eficazes para o atendimento de determinados indivíduos.
       Após as colocações sobre a Neuropsicopedagogia, a autora faz uma contextualização da definição e da diferenciação entre as atividades desenvolvidas pela Neuropsicopedagogia, a Neuropsicologia e a Psicopedagogia, que como forma de sistematização estão inseridas no quadro(1), entretanto, no livro a autora traz uma abordagem mais ampla e com maior riqueza de detalhes de cada uma delas:

Quadro 1- Diferenciações e semelhanças entre a Neuropsicopedagogia, Neuropsicologia e Psicopedagogia

Neuropsicopedagogia
Neuropsicologia
Psicopedagogia
Bases
Neurociência + Psicologia + Pedagogia
Neurociência + Psicologia
Psicologia +  Pedagogia
Instrumentos de avaliação
Faz uso de testes não privativos (instrumentos que podem ser utilizados tanto pela Psicologia quanto por outras profissões), realizando avaliação, intervenção e acompanhamento do indivíduo com dificuldades de aprendizagem, transtornos, síndromes ou alta habilidades que causam prejuízo na aprendizagem escolar e social.
Faz uso de instrumentos especificamente padronizados avaliando as funções neuropsicológicas (habilidades de atenção, percepção, linguagem, raciocínio, abstração, memória, aprendizagem, habilidades acadêmicas, processamento de informações, visuoconstrução, afeto, funções motoras e executivas.
Faz uso de métodos, instrumentos  e recursos próprios para a compreensão do processo de aprendizagem, cabíveis na intervenção.
Atuação
Atua na avaliação, intervenção, acompanhamento, orientação de estudos e no ensino de estratégias de aprendizagem.
Atua no diagnóstico no tratamento e na pesquisa da cognição, das emoções, da personalidade e do comportamento sob o enfoque da relação entre estes aspectos e o funcionamento cerebral.
Atua em Educação e Saúde que se ocupa do processo de aprendizagem considerando o sujeito, a família, a escola, a sociedade e o contexto sócio-histórico, utilizando procedimentos próprios, fundamentados em diferentes referenciais teóricos
Semelhanças
Natureza Multiprofissional, inter e transdisciplinar e o estudo do desenvolvimento humano e dos processos de ensino e aprendizagem.
Fonte:  elaborado pela autora de acordo com a fundamentação do Livro Neuropsicopedagogia Clínica

    Ressaltada a diferenciação entre as três linhas de atuação, o capítulo 1(um) é contemplado com a descrição minuciosa do sistema nervoso, suas divisões e subdivisões, a influência dos neurotransmissores em questões relativas à aprendizagem, bem como as partes do neurônio e a descrição das sinapses. A autora traz também o conceito de neuroplasticidade e a importância da mesma no processo de aprender/reaprender. 
     Como teórico das funções cerebrais, Luria recebe destaque neste capítulo onde são explicadas as unidades funcionais e as bases neuropsicológicas da aprendizagem: atenção, percepção e memória.           
      O segundo capítulo, Desenvolvimento e Aprendizagem, reforça o comprometimento do neuropsicopedagogo com o estudo do desenvolvimento humano nas suas diversas interfaces, ressaltando as questões relativas à aprendizagem, trazendo o resgate de contribuições importantes de Piaget (figura 1), tais como:

Figura 1- Piaget e os processos de Equilibração, Assimilação e Acomodação.

Fonte:  elaborado pela autora de acordo com a fundamentação do Livro Neuropsicopedagogia Clínica

         O mesmo capítulo  sintetiza as contribuições de Vygotsky e o importante papel da mediação da aprendizagem, mas além disso são abordados o significado dos signos quanto ao desenvolvimento humano, onde aparecem as questões relacionadas a internalização e a reconstrução da atividade interna. A autora cita que “sem os signos externos, principalmente a linguagem, não seriam possíveis a internalização e a construção das funções superiores. ” (RUSSO, 2015, p.72)
     Como terceiro protagonista do desenvolvimento humano, Henri Wallon e seus estudos do desenvolvimento infantil, envolvendo aspectos afetivo, cognitivo e motor, que são abordados com muita propriedade.
      O quarto e último teórico, trata-se de Albert Bandura, este tem seus estudos pautados na aprendizagem e o papel da modelação social no desenvolvimento cognitivo e linguístico das crianças. Através de Bandura percebemos que muitas aprendizagens ocorrem por observação do comportamento de outras pessoas. Conforme Russo (2015, p.78),  

A abordagem de Bandura consiste em uma teoria de aprendizagem “social”, porque estuda a formação e a modificação do comportamento nas situações sociais. Seu objetivo é observar o comportamento dos indivíduos durante a interação, reforçando a influência dos esquemas de reforço externo dos processos de pensamento, tais como: crenças, expectativas e instrução.

     Através da proposta de explicar o como diferentes teóricos percebem o desenvolvimento e a aprendizagem, Rita Russo demonstra que o neuropsicopedagogo necessita se apropriar destes conhecimentos percebendo o indivíduo na sua totalidade, entendendo que o desenvolvimento e aprendizagem envolvem dimensões “neuro-bio-psico-sociais”.
     O capítulo três, Dificuldade de aprendizagem, inicia com algumas conceituações sobre a terminologia que aparece no título, sendo que conforme a Organização Mundial de Saúde (1993 apud RUSSO, 2015, p. 84-85),

Os transtornos específicos do desenvolvimento das habilidades escolares compreendem grupos específicos de transtornos manifestados por comprometimentos e significativos na aprendizagem. [...] Eles não nãos simplesmente uma falta de oportunidade de aprender, e sim, dificuldades decorrentes de desenvolvimento neurológico.

        As dificuldades de aprendizagem são muitas e necessitam muito conhecimento sobre tudo que envolvem estes transtornos, nesse sentido a autora traz a conscientização da importância do neuropsicopedagogo clínico ter familiaridade com o DSM-V, principalmente sobre os Transtornos do Neurodesenvolvimento.
       Como forma de contribuição para o atendimento clínico, ela traz de forma breve, porém com muita riqueza de conteúdo, descrições de distúrbios mais comuns relacionados à aquisição de linguagem e habilidades matemáticas, mas também há a descrição de habilidades que a criança necessita ter desenvolvido para a aquisição da alfabetização e numerancia.
     Um ponto muito positivo deste capítulo é justamente a forma como a autora fez a descrição de como ocorre o desenvolvimento normal do indivíduo dentro de determinada área e quais os comprometimentos que ocorrem quando este não se encontra dentro dos padrões esperados. Trata-se de um capítulo muito prático, repleto de elementos que auxiliam na avaliação neuropsicopedagógica.
     O quarto capítulo, Princípios da avaliação neuropscicopedagógica, traz orientações pertinentes quanto ao uso de testes do neuropsicopedagogo para avaliação dos indivíduos. Rita Russo além de mencionar a variedade de testes disponíveis, enfatiza o cuidado para não ser utilizados testes vetados a demais profissionais, e, também lembra que as escolhas dos instrumentos de avaliação devem estar coerentes com as características do paciente.
     Nesse sentido, o  trabalho desenvolvido por Vygotsky, Luria e Leontiv , em seu livro "Desenvolvimento e aprendizagem", comprovaram que os testes devem contemplar  elementos que já são de conhecimento prévio do indivíduo, que fazem parte da cultura local,  exemplos estes podem ser lidos no capítulo intitulado “Diferenças culturais de pensamento”. Sendo que, Rita Russo aborda a importância de adaptar os testes para as condições do paciente e analisá-lo de maneira mais qualitativa (RUSSO, 2015).
     Outro item que deve ser ressaltado faz menção à avaliação neuropsicopedagógica, ou seja, para quais habilitações o neuropsicopedagogo possui ou não capacidades de avaliar e quais as patologias que são de competência de ouros profissionais.  Como forma de sistematização, são apresentadas na figura(2) abaixo:

Figura 2- Avaliação Neuropsicopedagógica.

Fonte:  elaborado pela autora de acordo com a fundamentação do Livro Neuropsicopedagogia Clínica

      De forma muito bem detalhada no livro, Russo apresenta as etapas do atendimento neuropsicopedagógico, mas subliminarmente há ênfase para flexibilidade e perspicácia do neuropsicopedagogo quanto a melhor estratégia para cada indivíduo...por exemplo:

Quadro 2- Sugestão de atendimento neuropsicopedagógico
Sugestão de atendimento neuropsicopedagógico

Objetivo
Estratégias
Tempo:
Anamnese
- Investigar o histórico familiar, gestacional, parto - fatos que envolvam o momento do nascimento, pós-parto. Pós-parto.
– Avaliar a situação atual do paciente, sua evolução ao longo do tempo e sua compreensão sobre seu problema. Desenvolvimento neuropsicomotor; o jeito de ser do paciente; experiências escolares; Estudo da queixa (motivo da consulta).
- Entrevista com os familiares;
- Observação lúdica;
- Análise do material escolar;
- Diálogo com a equipe  técnica-pedagógica e professores da escola frequentada pelo paciente.
- a entrevista pode ocorrer numa única sessão, porém, logo em seguida deve-se informar o objetivo e a função da avaliação neuropscicopedagógica, a previsão do número de sessões e a forma de encerramento, a definição do horário e a duração das sessões, local de atendimento, honorários e a forma cobrança.
Avaliação Neuropsicopedagógica

- observação do indivíduo frente as atividades propostas (forma como executa as atividades dirigidas e espontâneas, se apresenta: colaboração,  oposição, inquietude, motivação, insegurança ou tensão)
- análise do material escolar;
- investigação das habilidades sociais
- Instrumentos padronizados;
- Hora lúdica
- etc;
Entre 3 a 6 sessões de 1 hora e ½, dependendo do caso. Na fase de avaliação é possível atender o paciente até 3 dias na semana, porém intercalados.

Devolutiva aos familiares, ao paciente e à escola.
- apresentar os resultados evidenciados a coleta de dados feita na avaliação, indicando fatores que estão dificultando a relação ensino-aprendizagem, mas também, orientar e sugerir estratégias para melhorar
Tanto o paciente como os familiares e/ou responsáveis necessitam de orientações e indicações para acompanhamento futuro
Intervenção
- Utilizar estratégias variadas que promovam o ensino-aprendizagem
- Estratégias variadas contemplando as necessidades de cada paciente.
- Sessões de uma a duas vezes por semana com duração de 50 minutos.
 Fonte:  elaborado pela autora de acordo com a fundamentação do Livro Neuropsicopedagogia Clínica

     Em aspectos relacionados à avaliação, há a preocupação de mostrar que existem modalidades diferentes de avaliar o paciente, envolvendo:
Avaliação quantitativa: instrumentos de leitura, escrita, aritmética, atenção e funções executivas, memória de aprendizagem e destreza motora.
Avaliação qualitativa: desenhos, sequência e movimentos, exercícios de criatividade, tarefas envolvendo leitura, escrita, cálculos, interpretação e intelecção de texto, jogos (competitivos ou não) e softwares educativos.
      Após toda a explanação das etapas destinadas ao atendimento ao paciente, a autora faz a descrição de diversos Instrumentos de avaliação que podem ser utilizados nas diversas áreas  do  desenvolvimento  humano.
     O quinto e último capítulo aborda a Intervenção Neuropsicopedagógica e inicia enfatizando a importância do uso de estratégias variadas de aprendizagem como instrumentos de intervenção, que segundo Russo (2015, p.125) “por serem conscientes e intencionadas, as estratégias de aprendizagem implicam em Plano de Ação (intervenção)”.  E para isso, é ressaltada a importância do planejamento de metas contemplando fases: inicial, intermediária e final da intervenção, sendo que estas são propostas por Beltrán (1993,1996) e Rita Russo traz para o contexto da Neuropsicopedagogia.

 Quadro 3- Metas de Intervenção Neuropsicopedagógica
Metas de intervenção Neuropsicopedagógica
Fase Inicial
- investigação de como o paciente utiliza-se de sua capacidade em aprender e de que forma esta possa ser reconhecida e assim legitimar as habilidades e competências nos desafios escolares.
Fase Intermediária
- uso de estratégias visando os processos de compreensão-retenção e recuperação-utilização. O neuropsicopedagogo fará uso de recursos variados
Fase Final
- reavaliação do quadro: se o paciente alcançou as metas procede-se à alta; - se não atingiu elabora-se um novo relatório, destacando os ganhos do paciente durante o período de intervenção, mas em seguida, apresenta-se um novo plano.
  Fonte:  elaborado pela autora de acordo com a fundamentação do Livro Neuropsicopedagogia Clínica

     E neste capítulo final, Rita Russo nos contempla com sugestões de atividades que podem fazer parte do plano de intervenção.
       Os tópicos descritos aqui são mínimos comparados a todo conteúdo abordado no livro. A autora preocupou-se em elencar aspectos fundamentais para o trabalho do Neuropsicopedagogo Clínico, pautados tanto na teoria quanto na prática. O livro constitui-se de 146 páginas muito bem utilizadas e repletas de saberes importantes, que necessariamente não se limitam somente ao neuropsicopedagogo, mas a todos profissionais da área clínica que intervém nos aspectos relativos ao ensino-aprendizagem.
      
Nota: Para aqueles que tiverem interesse na aquisição do livro, eis o link onde comprá-lo: https://www.jurua.com.br/shop_item.asp?id=24083  

Bibliografia:
RUSSO, Rita Margarida Toler. Neuropsicopedagogia Clínica: Introdução, Conceitos, Teoria e Prática. Curitiba: Juruá, 2015.
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Especialista em Alfabetização, Neuropsicopedagogia e Educação Inclusiva, Neuropsicopedagogia Clínica e Pós-graduanda em Neuroaprendizagem. - whatsApp - 51 9248-4325

Como fazer a citação deste artigo:

HENNEMANN, Ana L. Considerações sobre o livro Neuropsicopedagogia Clínica - Introdução, Conceitos, Teoria e Prática. Novo Hamburgo, 03 nov/ 2015. Disponível online em: http://neuropsicopedagogianasaladeaula.blogspot.com.br/2015/11/livro-neuropsicopedagogia-clinica.html



terça-feira, 27 de outubro de 2015

Motivação como ferramenta de aprendizagem

Ana Lúcia Hennemann[1]



Da mesma forma que sem fome não apreendemos a comer e sem sede não aprendemos a beber água, sem motivação não conseguimos aprender.
- Iván Izquierdo.

    Vivemos tempos em que tudo parece muito difícil: violência, situação política, econômica, saúde pública, enfim, cada um através de seu prisma consegue enxergar aquilo que lhe aflige... Mas, também podemos afirmar que nosso conforto nos cega!!! Talvez tenhamos comodidades que em séculos anteriores nossos antepassados não as tiveram.
       Que tal imitarmos o personagem de Christopher Lloyd, o cientista Doc  Brown, no filme “De volta para o futuro”, mas voltar  no tempo até aportar exatamente no local onde estão chegando os primeiros imigrantes em terras brasileiras? Na mala, apenas sonhos, esperança de um futuro melhor, sementes e ferramentas agrícolas para que pudessem plantar seus alimentos, construir suas casas. Por todos os lados há somente mata, mas é esta a realidade, é através dela que terão que cuidar da família, zelar pela educação de filhos, caçar o alimento, buscar água para o próprio consumo...imaginem o tamanho da motivação que estes indivíduos precisavam ter?
      Muitos devem pensar: - mas isso é uma questão de sobrevivência!!! Lógico que é!! E é bem nesse ponto que quero tocar: - MOTIVAÇÃO é questão de sobrevivência! É ela que nos faz querer algo mais, que nos impulsiona para nos desvencilhar de todos e quaisquer empecilhos para que possamos alcançar nossos objetivos.
     Motivação provém da palavra em latim “MOVERE”, que significa mover para realizar determinada ação. Ou seja, é o impulso que nos move para agir. Percebe-se muitas escritas em neuroeducação enfatizando o papel das emoções, que trata-se de “um estado que a pessoa fica diante determinada situação/sentimento” (Mattos, 2010), pode ser algo passageiro, mas elas são de extrema importância, pois as emoções em ação tornam-se poderosos fatores de motivação, liberando neurotransmissores responsáveis pela nossa sensação de prazer, de bem-estar, acionando assim mecanismos que  sustentam a motivação, que “é uma condição de estar preparado e com vontade de fazer alguma coisa” (Mattos, 2010).
       A motivação traz o entendimento do porquê o aluno precisa estudar, que diferença fará na sua vida aprender determinado conteúdo, além de dar suporte para que muitas vezes consiga dizer não para algum compromisso com amigos e mesmo assim tenha prazer em estudar.
      Os mecanismos da motivação quando ativados no cérebro liberam dopamina, que é uma substância neuromoduladora capaz de modificar as atividades elétricas dos neurônios. Quanto maior a quantidade de dopamina que recebemos, maior é a sensação de bem-estar que associamos aquele comportamento, procurando repetir este estímulo como forma de ativar nosso sistema de recompensa.
        Se o aluno recebe um elogio do professor por determinada situação, com certeza irá querer repetir a ação para receber novos elogios. Se disser para tal pessoa que o sorriso dela é encantador, certamente ela vai sorrir com muito mais frequência. Como também se comemos algo que nos deu prazer, visitamos algum local maravilhoso ou sentimos alegria na companhia de alguma pessoa, vamos querer repetir a dose...
       Dentro da questão motivacional entra em cena também os famosos neurônios-espelho, que são células especializadas que tentam reproduzir automaticamente ações alheias e nos permitem tanto imitá-las quanto interpretá-las e nesse sentido Fraiman (2014) nos diz que “a postura do educador influencia na motivação de seus alunos e em seu impacto na comunidade”. Portanto, para motivar alunos, precisamos ser exemplo de motivação. Eles precisam sentir que é possível sim, fazer a diferença, que a educação é âncora motivacional para a vida, que nosso cérebro ‘aprende’ não só novos conteúdos na escola, mas também a alterar processos-chave para a vida.
        Talvez alguns educadores esqueceram o que um dia os motivou a chegar a tal lugar, o encanto que teve o primeiro emprego, ou ser chamado no edital do concurso, seu primeiro dia na escola, sua primeira reunião, o primeiro olhar de cada aluno... sim, os alunos já eram agitados, desmotivados, sempre o foram! Mas, a expectativa do fazer docente, fazia com que isso servisse de impulso para criar novas técnicas, preparar aulas diferenciadas, propor atividades diversificadas.... Em muitos momentos do fazer docente podemos passar por situações de desmotivação, mas se faz necessário pensar: - e se fosse meu primeiro dia, se fosse meu primeiro ano? Como agiria?
       Mussak (2013, p.119) conta um episódio que assistira de Madame Bovary: “Emma, queixa-se do esposo, e me chamou particularmente a atenção um trecho em que ela diz que seu marido é muito bom, atencioso, mas não é ambicioso. Ela, ao contrário, é ambiciosa, ela quer mais da vida. Naquele tempo, a mulher não devia ser ambiciosa, quem tinha de ser ambicioso era o marido, mas seu nível de expectativa é mais elevado do que o dele. Em certo momento, ela diz algo assim: quando olho para meu futuro, vejo um corredor escuro com uma porta fechada no seu extremo”. E isso a desesperava. Ela não conseguia manter a motivação no casamento porque, ao olhar para adiante, via apenas um trajeto sombrio e sem saída”.
        E quantas vezes podemos passar esta mesma sensação a nossos alunos, de que a vida é um trajeto sombrio e sem saída, é preciso ter vistas para um futuro mais audacioso ter a certeza do que e porque estamos na estrada da educação.
       Nosso corpo possui drogas internas, a dopamina e a ocitocina, responsáveis pelo prazer e pela colaboração, que são estimuladas com a palavra e o reconhecimento. (Costa, 2014). Quando falamos em motivação como ferramenta de aprendizagem é justamente o encantar com a palavra e o reconhecimento, durante séculos estes recursos nunca caíram de moda: “mostrar empatia pelo aluno, ser exemplo de motivação, trabalhar conteúdos através de histórias, mudar a tonalidade da voz, ...”
        São pequenos fatores que fazem a diferença, se não os fizesse não existiria nenhuma Malala Yousafzai, em pleno século XXI, recebendo prêmio Nobel (2014) por reivindicar o direito ao estudo, o direito de ter a presença de um professor, o direito de fazer a diferença no mundo.
        Se em tempos anteriores, alguns transformaram a história, trazendo consigo apenas algumas sementes e ferramentas agrícolas, que nós sejamos mais audaciosos, pois com todos os recursos que dispomos, precisamos ser referência em motivação, de tal forma que lá dentro do cérebro de nossos alunos, seus neurônios-espelho, clamem por: - eu quero ser assim, eu quero aprender isso... E dessa forma podemos passar a sensação de que a vida é um trajeto claro e com muitas oportunidades, desde que tenhamos motivação para alcançar nossos objetivos.

Referências:
COSTA, J. Congregarh-2015
JESEN, Eric. Enriqueça o cérebro: como maximizar o potencial de aprendizagem de todos os alunos. Porto Alegre: Artmed, 2011.
MATTOS, Geraldo. Dicionário Júnior da Língua Portuguesa. São Paulo: FTD, 2010.
MARINS, L. MUSSAK, E. Motivação: Do querer ao fazer. Campinas: 7 mares, 2013.


[1] Especialista em Alfabetização. Neuropsicopedagogia Clínica. Neuropsicopedagogia e Educação Inclusiva. Neuroaprendizagem. Pós-Graduanda em MBA em Liderança e Coaching para Gestão de Pessoas.

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Mediação na aprendizagem

Ana Lúcia Hennemann*


[...] o ensino deveria progressivamente se transformar numa autêntica “neuro-psico-pedagogia”: a ciência unificada e cumulativa onde a liberdade de ensino não é negada, mas voltada para a pesquisa pragmática de um ensino melhor estruturado e mais eficaz. O conceito que exige a experimentação é uma das belas ideias que a ciência pode aportar à pedagogia. Experimentar não é de manhã ensaiar uma ideia que nos chegou durante a vigília da noite anterior. Experimentar exige, ao contrário, conceber com paciência, minúcia e levando em consideração todos os conhecimentos passados, uma manipulação nova da estratégia de ensino, que será comparada com uma situação de controle (outro dia, outro exercício, outra classe).
Stanislas Dehaene

         Imagine-se num local onde todos fossem fluentes na escrita e leitura em mandarim, mas você não! O quadro estaria repleto de atividades, todos seus colegas empenhados na execução das mesmas, mas você... Ahhh e se além de não ter o domínio do mandarim, ainda fosse alguém muito tímido...a situação seria pior, não seria? E se em determinado momento o professor percebesse que você não está conseguindo um bom desempenho acadêmico e iniciasse a averiguação de possíveis hipóteses de sua não aprendizagem: - quem sabe você teria algum déficit de atenção? Ou dislexia, pois disléxicos tem muita dificuldade na aquisição da leitura! Quem sabe algum problema emocional estivesse bloqueando sua aprendizagem...
           Agora vamos aumentar um pouquinho esta imaginação, digamos que se passaram 3 anos nesta escola... O primeiro ano, destinado a alguns conhecimentos básicos do mandarim, seu professor estivesse passando por situações difíceis e se exaltasse com frequência, e você por medo ou timidez, se limitasse apenas a fazer cópias daqueles ideogramas, era uma maneira de manter-se ocupado...concorda comigo? No ano seguinte, quem sabe o próximo professor nem percebesse sua presença na sala de aula, afinal de contas, você copia muito bem, não faz perguntas, e além de tudo é tímido... Mas, chegou o terceiro ano, e aqui tem um fator diferencial, se você não ler e escrever em mandarim e também não tiver nenhum laudo que justifique sua não-aprendizagem, obviamente você terá que repetir o ano...Eu sei que a história é maluca, mas gostaria que entendesse quanto o olhar de um professor pode fazer a diferença na aprendizagem de qualquer educando.
      Frequentemente escutamos a fala de professores focada naquele aluno que se apresenta mais inquieto, seja por hiperatividade, seja pela constante participação. Porém, o que fazer por aqueles que são tímidos? Introvertidos? Estes sim, precisam muito mais do que um olhar, precisam de alguém que praticamente leiam suas intenções, percebam quando estão em dúvida, percebam quando tinham a intenção de perguntar algo, mas não o fazem, talvez por medo de se expor no grupo, ou por outra razão qualquer, por isso enfatizo novamente: - O olhar do professor faz toda a diferença na vida de uma criança. Pacheco (2007, p.150) enfatiza que “ Os professores precisam conhecer o estado de desenvolvimento dos alunos para encontrar as tarefas apropriadas. Isso significa que eles precisam observar os alunos para saberem para o que eles estão prontos. ” 
          Na psicologia cognitiva, existe a terminologia mediação, que faz referência a “uma experiência refletida e instrutiva em que uma pessoa bem-intencionada, experiente e ativa, geralmente um adulto, se interpõe entre um indivíduo e as fontes de estímulos”. (DIAS 1995 apud VIANIN 2013)
         O cenário educacional está repleto de excelentes profissionais que apostam na mediação da aprendizagem como forma de auxiliar o aluno em suas necessidades mais básicas, ou seja, procuram verificar qual exatamente o estágio em que o aluno se encontra e a partir disso constroem estratégias que promovam a aprendizagem. Preste atenção no relato a seguir...
Era início do segundo semestre do 3º ano do ensino fundamental e num jeito muito tímido Júnior (nome fictício) ingressou na turma. Junto a ele, seu histórico: não sabia ler, pouca participação em aula, excessiva timidez, caderno impecável, letra exemplar, suspeita de déficit de atenção ou dislexia.  
Nas primeiras horas dentro desta nova realidade, foram propostas algumas atividades lúdicas, procurando integrar o aluno e investigar seu desempenho nas mais diversas áreas. Uma mediação eficaz necessita conhecer todas as possibilidades de atuação com o indivíduo e mesmo que no histórico relate situações de falta de êxito em determinadas atividades, se faz necessário verificar quais as possibilidades de mudanças daquela realidade e dentro desta perspectiva que Júnior foi convidado a escrever algumas palavras ditadas pela professora, ou seja, uma sondagem da aquisição da escrita, sendo que o mesmo deveria escrever sem medo de errar e do modo como soubesse. Resultado: o menino não conseguiu escrever nenhuma palavra coerente, poderíamos dizer que se encontrava na fase pré-silábica...
A professora deu continuidade à aula, porém muito pensativa: - o que fazer por uma criança no terceiro ano e com pouquíssimas condições de se alfabetizar...
Num determinado momento, lembrou de Ausubel: “a educação deve partir dos conhecimentos prévios do aluno” e nesse sentido, Fabre (2006 apud Vianin 2013) nos diz que “o pedagogo não é aquele que teoriza sobre a prática dos outros, mas sim sobre sua própria prática”, e eis que solicita novamente a criança:
- Júnior, antes pedi para você escrever algumas palavras, mas vamos fazer diferente:  do teu jeito de criança, eu quero que você me escreva, palavras que você já sabe escrever...- e ele, com um sorriso tímido, escreve; - bola, Júnior, Paulo, Maria, José, Marta, João... (bola, pois ele era excelente no futebol, e as demais palavras eram os nomes dos integrantes de sua família).
Excelente! A professora já tinha como montar uma linha de intervenção com essas pouquíssimas palavras e criar muitos jogos como estratégias de aprendizagem.... Resumindo a história: - o aluno conseguiu através de poucas atividades, porém constantes, a apropriação do processo de leitura e escrita. Em poucos meses já conseguia ler e escrever frases simples, mas para quem passou 3 anos olhando como se tudo fosse em mandarim, pode-se dizer que foi um progresso espetacular.
          Um mês após a vinda de Júnior para este contexto educacional vieram os resultados de exames neurológicos...nenhum déficit cognitivo! Entretanto, isso não descarta a possibilidade de problemas de outros fatores, tais como os psicológicos, porém, um grande equívoco é quando o professor fica à espera de um laudo e deixa de fazer aquilo com que se comprometeu: - promover a aprendizagem. Não existem receitas prontas, muito menos métodos milagrosos, mas deveria ocorrer maior investimento na conscientização do educador como promotor do ensino de estratégias cognitivas e metacognitivas necessárias à aprendizagem.
     Será que nos anos anteriores foram propostas atividades que aproveitasse os conhecimentos prévios do educando? O aluno por apresentar uma timidez acentuada foi “deixado de lado” porque não interferia no desenvolvimento da aula? Qual a práxis do educador frente a não aprendizagem do aluno?
         Há casos em que, sem a mediação do adulto a criança não consegue aproveitar na sua totalidade os estímulos propostos pelo ambiente, por isso se faz necessário o trabalho na “zona proximal de desenvolvimento” (Vygotsky), ou seja, alguém que aumente a capacidade do aluno de aproveitar as situações de aprendizagem que encontra.
          O professor, diante o processo de ensinar, mantém uma relação privilegiada do saber (Vianin, 2013), portanto compete a ele, escolher o tipo de intervenção mediativa de que o aluno necessita. Muitas vezes, cria-se nas escolas uma falsa ilusão de que basta colocar o aluno em constantes atividades que a aprendizagem acontece, no entanto, se faz necessário o entendimento que “a intervenção de uma pessoa mais competente que a criança [...] permite ao aluno desenvolver novas modalidades de desenvolvimento cognitivo.” (VIANIN, p.193)
          Sabemos que existem muitos fatores que interferem na aprendizagem, mas se existe um fator que faz a diferença é justamente a figura do professor, seu comprometimento com o processo educacional, sua práxis pautada na mediação e a busca contínua de modificar o funcionamento cognitivo dos educandos, auxiliando-os a tomar consciência de seus conhecimentos prévios e o quanto eles podem ser ampliados.


REFERÊNCIAS:

PACHECO, José... [et al.] Caminhos para inclusão: um guia para o aprimoramento da equipe escolar. Porto Alegre: Artmed, 2007.

VIANIN, Pierre. Estratégias de ajuda a alunos com dificuldade de aprendizagem. Porto Alegre: Penso, 2013.
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* Especialista em Alfabetização/ Educação Inclusiva/ Neuropsicopedagogia. Pós-graduanda em Neuroaprendizagem/ Professora em cursos de pós-graduação nas disciplinas voltados às  Neurociências, Neuropsicopedagogia, Educação Inclusiva, Alfabetização.