Ana Lúcia Hennemann[1]
O
ato de ler pode modificar as concepções que o indivíduo faz do mundo. Traz
autonomia, expande a imaginação e aumenta a capacidade cognitiva. No entanto,
ler é uma evolução histórico cultural (SOUZA, 2003), não nascemos com nenhuma
área cerebral específica da leitura, mas sim, “há uma grande complexidade na
forma como o cérebro processa a linguagem, com áreas de especialização para as
diferentes dimensões da linguagem”.(SOUZA, 2003, p. 3)
Diante
desse fato, a de se entender que para que o indivíduo adquira a propriedade da
leitura, várias áreas necessitam ser estimuladas e deve-se investir em
atividades que auxiliem a criança na construção simbólica. Sendo que
“[...]muitos educadores não se dão conta de como o tornar-se alfabetizado afeta
a competência linguística dos falantes, tanto na fala como na escrita. ” (EHRI,
2016, p.50)
Pesquisas
desenvolvidas por Linnea Ehri[2]
evidenciam que a aquisição da leitura se dá através de palavras e que estas
ativam significados dentro do nosso cérebro, que nos fazem dar uma atenção
especial à escrita das palavras e reconhece-las automaticamente. Conforme a
neurocientista, existem vários processos utilizados para ler palavras, mas 4(quatro)
deles são essenciais: decodificação (que
envolve o uso do conhecimento grafema-fonema), analogia (que envolve o uso de partes de palavras conhecidas para
ler palavras desconhecidas quando ambas
possuem o mesmo padrão ortográfico, ex: mola, bola), predição (que envolve o uso de informações contextual de uma ou
mais letras para inferir a identidade das palavras, por exemplo: Maria brinca
com sua....(imã, amiga... tia) e memória
(que envolve a capacidade de leitura por reconhecimento automatizado).
Sendo
assim, em casos quais a criança não consegue se alfabetizar, os professores
podem sim, trabalhar na perspectiva da memorização de um pequeno grupo de
palavras (relativos ao nome da criança e/ou de demais familiares, bem como
nomes de objetos significativos para a mesma) que uma vez memorizados, serviriam
de conhecimentos prévios para reestruturar a construção de novas palavras.
Ehri,
diferente do que já se conhecia em termos de aquisição da leitura e escrita
evidenciado por Ferreiro, contribui com fases naturais do processo de leitura: pré-alfabética,
alfabética parcial, alfabética plena e alfabética consolidada.
A
velocidade com que cada criança ultrapassa estas diferentes fases varia muito
de acordo com o ambiente, com a língua e também com a capacidade individual,
mas de modo geral a sequência é sempre a mesma e a transição de uma para outra
é sempre gradativa.
Fase Pré- Alfabética
A
criança não apresenta ainda um reconhecimento da correlação fonema-grafema,
lembrando apenas de pistas visuais da palavra como o “M” de McDonald ou o “S”
da Sadia e assim pode interpretar erroneamente, palavras similares, que
contenham estas iniciais.
Durante
a fase pré-alfabética, as crianças não parecem prestar atenção às letras na
grafia das palavras. Ao invés disso, elas aprendem a ler com base na formação
de uma conexão entre um aspecto saliente na grafia da palavra ou ao seu redor
(p. ex., o arco dourado que aparece atrás do rótulo McDonald’s) e seu
significado e/ou pronúncia.
Com
efeito, as crianças em idade pré-escolar que participaram do estudo de
Masonheimer, Drum e Ehri(1984) mostraram-se alheias às trocas de letras
introduzidas em uma série de rótulos familiares (p. ex., Xepsi no lugar de
Pepsi ou OcDonald’s no lugar de McDonald’s) e continuaram a ler os rótulos como
se nada tivesse sido alterado (p. ex., lendo Pepsi em vez do Xepsi).
Fase Alfabética Parcial
À
medida que as crianças aprendem os nomes e os sons das letras, elas começam a
compreender que as letras representam sons na pronuncia das palavras e passam a
ler por meio do processamento e do armazenamento de relações entre as letras e
os sons. Inicialmente, contudo, a criança só é capaz de processar relações
letra-som para algumas letras nas palavras, talvez a primeira e a última letra.
Por exemplo, ao ver e escutar a palavra bebê, a criança pode notar que a letra
“b” no início e no meio da palavra corresponde ao som/be/que ela é capaz de
detectar na pronúncia da palavra. Essa compreensão permite-lhe usar informação
de natureza visuofonológica para criar uma via de acesso à memória, de maneira
que, ao ver a grafia da palavra novamente, ela consegue se lembrar tanto do seu
significado quanto de sua pronúncia. Contudo, uma vez que a criança só é capaz
de processar relações letra-som parcialmente, a representação da palavra é
ainda incompleta, algo como B_B_.
A
criança identificaria apenas algumas letras de cada palavra, como por exemplo o
“S” e o “O” da palavra sono, o que poderia implicar em dificuldade de
interpretação quando estivesse diante da palavra sino, por exemplo.
Fase Alfabética Plena
Caracteriza-se
pela habilidade de ler por meio da recodificação fonológica e requer o
processamento de todas as relações letra-som na palavra. Essa habilidade
permite ao leitor armazenar representações completas da grafia das palavras na
memória. Como consequência a leitura torna-se mais acurada. Ou seja, o leitor
nessa fase é capaz de identificar uma palavra familiar, como por exemplo, gato,
a despeito de sua semelhança com outras palavras também familiares como, por
exemplo, gata, gado, galo, gota, gola, pato, jato, etc.
Caracteriza-se
pela completa identificação de todas as letras de cada palavra e sua respectiva
correspondência sonora, permitindo assim uma leitura correta, que vai ser muito
mais rápida em uma fase posterior.
Fase Alfabética Consolidada
Na
qual o leitor é capaz de ler sequências de letras que ocorrem com uma grande
frequência, como por exemplo ENTE, que está presente em dente, mente, carente,
saliente, etc., em vez de ler cada letra isoladamente.
À
medida que o vocabulário visual aumenta, sequencias de letras que ocorrem em
diversas palavras (e seus respectivos sons) são consolidadas em unidades
maiores, tornando os leitores capazes de operar com unidades correspondentes a
morfemas e/ou sílabas. Essas unidades são mais econômicas, por que ajudam a
reduzir o número de conexões entre a escrita e a fala, necessárias para
processar e armazenar a grafia das palavras na memória.
Um
fator interessante da alfabetização consolidada é que o leitor alfabetizado, e
com a leitura já automatizada, terá dificuldade em ignorar um estimulo escrito
(EHRI, 2007).
Uma
das funções da neuropsicopedagogia é procurar entender de que forma ocorrem os
processos de aprendizagem, principalmente os novos estudos pautados numa visão neurocientífica e dentro disso procurar articulações que possam trazer maiores benefícios para
os aprendentes e ensinantes, pois aprendizagem é isso, busca, renovação,
ressignificação e compartilhamento de saberes.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
EHRI,
Linnea. Aquisição da habilidade de leitura de palavras e sua influência na
pronuncia e na aprendizagem do vocabulário. In MALUF, Maria Regina.
CARDOS-MARTINS, Cláudia. [et al] Alfabetização
no século XXI: como se aprende a escrever.
OLIVEIRA,
Marta. Vygotsky: aprendizado e
desenvolvimento: um processo sócio-histórico. 5 ed. São Paulo: Scipione, 2010.
SANCHEZ-
CANO, Manuel. Manual de Assessoramento
Psicopedagógico. Porto Alegre: Artmed, 2011.
SNOWLING,
Margaret. HULME, Charles. A ciência da
leitura. Porto Alegre: Penso, 2013.
SOUZA LIMA, Elvira. Quando a criança não aprende a ler e a escrever. São Paulo: Sobradinho
107, 2003.
______. Neurociência e Aprendizagem.2 ed. São Paulo: Inter Alia Comunicação
e Cultura, 2010.
Como fazer a citação deste artigo:
HENNEMANN, Ana L. Alfabetização na Perspectiva de Linnea Ehri Novo Hamburgo, 20 julho/ 2016. Disponível online em: http://neuropsicopedagogianasaladeaula.blogspot.com.br/2016/07/
alfabetizacao-na-perspectiva-de-linnea.html |










